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Lá vai o
menino, já um pouco grande demais. Entenda, 28 anos, algumas faculdades
incompletas e uma concluída. Mas, só um minuto, tenho que
esclarecer que esse rapaz grande que caminha de cuecas pela sala em direção
da cozinha não trabalha. Não todos os dias. Não que
ele seja preguiçoso, ele só é contra os valores burgueses
da sociedade. E, também, ele é adepto da teoria da mais
valia marxista. Assim, ele não vende sua mão-de-obra de
maneira barata para adquirir bens e status social. Ele sente quase
que desprezo por aqueles pobres que, diariamente, cumprem horário
para o trabalho em troca de salário.
Na cozinha simples,
casa de bairro com quintal e um filhote de cachorro - seu mais novo amigo
- sua mãe faz o almoço, já é quase meio-dia.
Ainda sonolento, o menino grande olha para a mãe "daquele
jeito". Sim, ele aprendeu com o cachorro. O grande e gorduroso coração
de mãe se enche de ternura, e aquece a frigideira para fazer um
pãozinho com manteiga quentinho. E toda ela, margarina e mãe,
derretem na visão do seu filho "tão moço".
A cena é bonita, ele sentado na mesa olhando a mãe cozinhar
e cuidar de toda a casa e da família. Ele certamente a ama muito.
E para prestar uma homenagem a essa gloriosa figura, ele tatuou o nome
da mamãe em um lindo coração flamejante, no antebraço.
Alimentado, ele toma
banho e deixa a barba por fazer, depois. Deixa outras muitas coisas para
fazer depois. Muito depois é o tempo suficiente para esquecer.
Agora ele acende um baseado, veja bem, dinheiro sempre muito bem aplicado.
Agora, é exigir demais do narrador pesquisar os pensamento do nosso
menino neste momento. São muitos, isso se pode dizer, também
curtos e inacabados. Confusos, mas ele os acha estimulantes. Mirabola
alguns projetos e tira algumas notas da guitarra. Mais tarde ele irá
mostrar para sues "trutas" e quem sabe ensaiar um som com aquele
riff.
Após, ele
pondera sobre passear com seu cachorro ou fazer alguma atividade física.
Mais tarde, certamente, alguma festinha na casa de alguém. Comer
alguma gatinha e, com sorte, ele conhece umas dessas mulheres com espírito
de "mãe-salvadora-de-sem-rumo". É divertido no
começo. Só início, meio e fim já é
demais.
A tarde ainda é
bonita e ele sai para um passeio com seu filhote canino. Enquanto caminha,
pensa em algumas premissas que norteiam - se é que podemos algo
classificar - seu exíguo life style. O principal, digamos
que este seja o conceito basilar da sua "filosofia" de vida
é, claro, jamais se relacionar. Criar vínculos nunca. Isso
implica compromisso, que é rotina, que é cotidiano, e é...
trabalho. Arrepio galopante, ele rejeita até pensar.
O garotão
não faz planos, ele quer ser livre. O mundo é enorme, como
em comerciais de televisão. Aqueles que são longos, com
jovens de frases curtas e feitas: Seja Free. Coisas assim. É muito
para conhecer e tempo não se pode perder com algo trivial demais
como trabalho, planos, contas e tudo o mais. A hora é agora; aproveitar;
curtir; ser feliz: "Uhuuuu".
Logo será
hora do jantar, festa, mais alguma noite igual com bebedeira e nada realmente
novo para dizer. Ele caminha e respira aliviado, afinal, ao entrar pela
porta sentirá o cheiro do mundo imperturbável. Ali naquele
pedaço do universo a vida permanecerá constante e agradável.
Sempre existirá a casa da mãe para voltar. E assim vive
o menino-nunca-homem. Sem contas para pagar, sem relacionamentos para
consertar, sem planos para sonhar, sem muito se aborrecer.
Neverland, a vida
é boa.
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