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Peter Pan não cresceu

 

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por Bianca Rosolem
 

Lá vai o menino, já um pouco grande demais. Entenda, 28 anos, algumas faculdades incompletas e uma concluída. Mas, só um minuto, tenho que esclarecer que esse rapaz grande que caminha de cuecas pela sala em direção da cozinha não trabalha. Não todos os dias. Não que ele seja preguiçoso, ele só é contra os valores burgueses da sociedade. E, também, ele é adepto da teoria da mais valia marxista. Assim, ele não vende sua mão-de-obra de maneira barata para adquirir bens e status social. Ele sente quase que desprezo por aqueles pobres que, diariamente, cumprem horário para o trabalho em troca de salário.

Na cozinha simples, casa de bairro com quintal e um filhote de cachorro - seu mais novo amigo - sua mãe faz o almoço, já é quase meio-dia. Ainda sonolento, o menino grande olha para a mãe "daquele jeito". Sim, ele aprendeu com o cachorro. O grande e gorduroso coração de mãe se enche de ternura, e aquece a frigideira para fazer um pãozinho com manteiga quentinho. E toda ela, margarina e mãe, derretem na visão do seu filho "tão moço". A cena é bonita, ele sentado na mesa olhando a mãe cozinhar e cuidar de toda a casa e da família. Ele certamente a ama muito. E para prestar uma homenagem a essa gloriosa figura, ele tatuou o nome da mamãe em um lindo coração flamejante, no antebraço.

Alimentado, ele toma banho e deixa a barba por fazer, depois. Deixa outras muitas coisas para fazer depois. Muito depois é o tempo suficiente para esquecer. Agora ele acende um baseado, veja bem, dinheiro sempre muito bem aplicado. Agora, é exigir demais do narrador pesquisar os pensamento do nosso menino neste momento. São muitos, isso se pode dizer, também curtos e inacabados. Confusos, mas ele os acha estimulantes. Mirabola alguns projetos e tira algumas notas da guitarra. Mais tarde ele irá mostrar para sues "trutas" e quem sabe ensaiar um som com aquele riff.

Após, ele pondera sobre passear com seu cachorro ou fazer alguma atividade física. Mais tarde, certamente, alguma festinha na casa de alguém. Comer alguma gatinha e, com sorte, ele conhece umas dessas mulheres com espírito de "mãe-salvadora-de-sem-rumo". É divertido no começo. Só início, meio e fim já é demais.

A tarde ainda é bonita e ele sai para um passeio com seu filhote canino. Enquanto caminha, pensa em algumas premissas que norteiam - se é que podemos algo classificar - seu exíguo life style. O principal, digamos que este seja o conceito basilar da sua "filosofia" de vida é, claro, jamais se relacionar. Criar vínculos nunca. Isso implica compromisso, que é rotina, que é cotidiano, e é... trabalho. Arrepio galopante, ele rejeita até pensar.

O garotão não faz planos, ele quer ser livre. O mundo é enorme, como em comerciais de televisão. Aqueles que são longos, com jovens de frases curtas e feitas: Seja Free. Coisas assim. É muito para conhecer e tempo não se pode perder com algo trivial demais como trabalho, planos, contas e tudo o mais. A hora é agora; aproveitar; curtir; ser feliz: "Uhuuuu".

Logo será hora do jantar, festa, mais alguma noite igual com bebedeira e nada realmente novo para dizer. Ele caminha e respira aliviado, afinal, ao entrar pela porta sentirá o cheiro do mundo imperturbável. Ali naquele pedaço do universo a vida permanecerá constante e agradável. Sempre existirá a casa da mãe para voltar. E assim vive o menino-nunca-homem. Sem contas para pagar, sem relacionamentos para consertar, sem planos para sonhar, sem muito se aborrecer.

Neverland, a vida é boa.