|
A outra eu é
doida. Completamente louca. Faz coisas que nem entendo. A outra eu tem
pele morena e cabelos anelados. A outra eu tem olhos azuis faiscantes.
A outra eu não dá a menor pelota pra opinião dos
outros. Sai gritando por aí. Briga com todo mundo. A outra eu briga
com desconhecidos no telefone, dá chilique, passa descompostura.
A outra eu surpreende até a mim.
A outra eu anda
de pé descalço, não penteia os cabelos, não
usa maquiagem. A outra eu é maluca. Doida, doida. A outra eu anda
de moto, e sem capacete. A outra eu é irresponsável, completamente.
A outra eu não tem medo de avião. Nem de mar. Nem de ladrão.
Nem de não conseguir o que quer.
A outra eu não
chora a toda hora, por nada. Não chora escondido. A outra eu não
chora, simplesmente. Ela é meio homem, acho. Cai e não se
machuca. Toma banho gelado no inverno. Faz sauna em pleno verão.
Toma banho de chuva. Não carrega remédio na bolsa. Não
tem celular. Anda a pé. No escuro.
A outra eu me dá
um medo. E não tem medo nenhum. A outra eu escreve um romance por
dia. É até meio carrancuda, sabe que todo mundo tem medo
dela. Mas não está nem ligando. Sobe pelas paredes. Anda
de patins, escala o Everest, nada daqui até o canal do Panamá.
E ainda diz que não ficou cansada.
A outra eu é
uma doida. Mata barata e não foge de besouros. Dá beijos
em cachorros. Anda a cavalo pelos pampas. Come vinte pães de queijo
e não sente culpa. Mistura vodca com vinho e continua sóbria.
A outra eu sabe
dar cambalhota embaixo d'água. Joga todos os esportes como ninguém.
Pula a fogueira e não está preocupada se vai se queimar.
Ama todas as estações do ano. Não reclama em dia
de chuva. Não tem medo de dizer não. Escreve coisas malucas
em francês. Diz absurdos em inglês. Canta em alemão
e recita poemas em italiano. Arranha japonês e mais alguns dialetos
orientais.
Não tem ninguém
no mundo como a outra eu. Ela me deixa louca, essa outra eu. Me deixa
mais eu do que nunca. E não se importa em ser a outra eu. E daí?
Sou mais eu. Ela não fica ouvindo bobagens calada, e nem dá
um dedo pra fugir de uma briga. A outra eu lê livros e revistas
começando pelo final. E termina sempre todos os livros, mesmo os
que acha muito ruins.
A outra eu me surpreende
com suas idéias aparentemente inaceitáveis. Viajou o mundo
todo dormindo em barracas e abrigos e coisinhas desconfortáveis
assim. E tem sempre as melhores histórias pra contar.
A outra eu às
vezes me olha esquisito. Nem me reconhece. E por que reconheceria? Somos
tão diferentes. É uma metida, descarada, desaforada, sabida.
Fala pelos cotovelos. É o centro das atenções. Está
com um monte de quilos a mais, e consegue fazer com que todos a achem
linda. A mais bela.
Acho que a outra
eu é uma fada. E, ainda assim, ela consegue rir de mim.
|