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Achava que não
conseguiria suportar o cheiro. Te agüenta, porque é
só no início. Veio no pensamento a voz da irmã,
que já tinha passado por isto. Parecia sentir a mão dela
tocando o seu braço. Mas não era. Era calafrio mesmo. Não
queres falar dos teus medos. Cheiro é coisa impiedosa, invade
de soco, sem dó. O que te deixa doido é não
saber lidar com isso. Queria que ela ficasse quieta, mas não
dá pra calar pensamento. Ela tinha essa mania chata de ficar falando
dentro dele, falando sem parar, falando sem ser consultada, falando. Só
porque tinha chegado antes no mundo.
Hoje foi ele quem
acabou se adiantando, e agora essa droga de medo. Viu a porta fechada,
mas sabia que a sala era aquela. Calor frio no corpo. Nada de cheiro.
Suava. Suando que estava, doido pra ir entrando, pra ver se o medo passava
rápido. O pior é controlar o corpo, essa fúria.
Cala a boca. Sombra. Sombreava sempre. Até quando ia continuar
sombreando, não sabia.
Nem percebeu que
um bando de avental branco passou rindo por ele. O professor apareceu
logo em seguida, destrancou a porta, ele logo atrás, vou entrar.
O cheiro veio violento, rompendo, penetrando, cheiro. Nessa hora quis
não ser tão sensível. Mas era. Deu uma olhada ligeira
em tudo, focou as mesas de metal, todas aquelas ex-pessoas ali deitadas.
Alguns grupos se ajeitando perto de cada mesa. O professor explicando
coisas que ele nem ouvia. Ensurdecido pelo cheiro. Presta atenção!.
Narinas adentro. Delírio. Delirando.
Só se acalmou
quando a mão do cadáver tocou na sua:
- Bom que vieste, amigo.
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