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por Bianca Rosolem

Eu, Kim e Jão. Silêncio sepulcral. O defunto no meio de nós. Entre nós, ele já não estava. Parece piada, mas essa era a vida, ou melhor, o fim da vida de Guto.

Guto era um cara bacana que falava muitas coisas sem perceber. Vizinho de porta, bem na frente, eu cruzava com Guto em algumas manhãs ou nos fins de semana, quando com uma pequena mala eu descia as escadas. Prédio de muitos apartamentos para pessoas sós, de vidas começando ou de vidas que nem sequer começaram - ou nem começariam, deixa isso pra lá - havia mudado há pouco. Vinda do interior queria São Paulo de qualquer maneira. Deixei as festas e os moços de casar de lado para dominar os livros que me levariam até a cidade desejada através do ingresso em uma faculdade pública.

Tensão, choro, risos, abraços, meu pai sentado sozinho na varanda. Minha mãe com um álbum de retrato nas mãos. Adeus. Assim foi. Dinheiro economizado deu para o ônibus, misto-quente e suco de laranja na rodoviária. O resto bem guardado pagou os primeiros meses do aluguel mais barato e cheio de baratas que a cidade possuía. Tanto faz, era próximo da Faculdade que eu cursava no centro, assim economizava com o transporte. O trabalho de digitadora também era próximo de casa e não demandava uso de ônibus.

Com o que sobrava, comprava livros velhos e passagens para visitar meus pais no interior aos finais de semana, sim e não. Daí, num desses dias com a pequena mala, Guto me ajudou a descer pelas escadas. A mala não era pesada, mas ele gostava de ajudar, de olhar minhas pernas, de dizer que eu era bonita, de me ver enrubescer, de tossir baixinho então, e contar alguma história estranha.

Guto carregou minha mala durante um ano e quando voltei das férias em fevereiro, percebi que sentia saudades. Então bati em sua porta levando um pouco dos biscoitos de goiaba amanteigados que minha mãe fazia e ele me chamou para entrar. Eu entrei, ouvi música, tomei vodka, achei engraçado os seus desenhos pregados pela parede e seu cachorro vira-lata sem a pata traseira esquerda que se chamava “Meu”. “O Meu era um cara, meu”. Ele explicou isso e muitas outras coisas. Quando eu chegava da faculdade de noite, isso lá pelas onze e tanto, Guto abria a porta e eu acabava entrando. Vodka, cigarro, haxixe. Basquiat, Manara e a antigravidade dos buracos negros. Alguns meses depois, ele levava o café da manhã na cama e fazia figuras dadaístas com pedaços de pão colados com margarina. Quando discutíamos, ele encarnava um personagem psicanalista que anotava todas as minhas proposições atenciosamente, e depois as lia imitando meus gestos. Eu ria, ele também. Guerra de travesseiros, correria, ele me namorava sentado na janela, brincando que pularia para provar seu amor.

Eu aceitei o namoro como os dias passavam, e andava de mãos dadas nos finais de tarde, aos sábado, na região da Sé procurando por livros em sebos. Eu já não mais reparava no cabelo que ele cortava sozinho no banheiro deixando as aparas espalhadas pelo chão. Nem na preguiça de fazer a barba que por vezes irritava meu rosto. Ele compensava com inúmeras histórias, sonhos, fantasias, desenhando meu pé detalhadamente enquanto eu estudava Antropologia.

Kim e Jão, grandes amigos de Guto, faziam fanzines, instalações, recitais, tudo que não dava dinheiro algum. Viviam pobres como Guto, tomando vodka, fumando tudo que não era cigarro e conversando até o dia amanhecer e anoitecer, amanhecer, por aí vai. Eu quase me irritei, mas não consegui. Entre uma vida e outra, lá era a melhor. Era o grande caos maravilhoso e livre. Era criatividade, sorrisos e cumplicidade. Éramos quatro, e nessas horas eles nem sequer notavam que eu era mulher. Jovens e conquistadores de uma dimensão inabitada, juntos pintamos as paredes do apartamento com frases que exprimiam o desejo de uma vida mais completa. Quando mais alterados, pintamos parte da escada comum e da porta de entrada. Quase expulsos, só eu tinha dinheiro para algum sustento real. Minhas economias acabavam e nem sequer ligações para o interior eu fazia.

As reuniões diminuíram sua intensidade então, era coisa da expiação da polícia e vizinhos. Tudo ficou pior com o golpe. Caras fechadas, pancadaria na faculdade, ruas estranhas, o ar denso e pegajoso. Guto parecia triste e faltava alguma coisa dentro dele. Ele me dizia cheio de sombras e com a voz muito fraca que já não era mais tempo. Eu na faculdade só pensava nele, e no trabalho também, e no caminho de volta. O tempo todo. Tentei acalmar, tentei consolar, tentei entrar dentro de sua ferida enorme para cicatrizá-la com beijos e abraços e com tudo que eu tinha de bom na minha vida.

Kim e Jão o levavam para a rua, para eventos, para shows, para novidades, e Guto a cada dia encolhia mais os ombros. Ele já não achava a proporção, a razão e a medida do viver. É certo resumo da sua angústia.

Os meses passavam e tudo era pré-fabricado e de grandes mentiras e medo. Voltava para casa, um ar assustada natural e comprei quindins brilhantes para Guto. Ele não estava. Arrumei a bagunça e senti sono. Dormi no sofá acordando com qualquer e todo ruído que a noite no Centro pode produzir. Isso durante três meses. Eu me formei e foi o dia mais triste da minha vida. Guto nunca mais voltou.

Eu estudei mais, fui assistente de mestres, fiz mestrado, fui professora e doutora, continuei no Centro, apartamento bem maior, cheio de cômodos, casei com outro doutor. Alguns anos passaram e brigávamos pelo cachorro, pelo apartamento, pelos quadros na parede. Kim e Jão continuaram por aí, e por vezes eu emprestava algum dinheiro a eles e ouvia histórias já nem tão surpreendentes.

Dias comuns. Eu saía de um dia longo de bancas e teses, era outono e um frio azul descia do céu e achei tudo muito bonito. No carro, passei batom e notei que meu rosto era envelhecido muito pouco. Chegando em casa Kim e Jão estavam sentados na padaria do lado. Paguei a conta deles e chorei bastante.

Entramos no carro e demorou umas 5 horas para liberarem o corpo do Guto. Não éramos familiares e apenas contataram o Kim porque o Guto carregava seu velho endereço, e por bem ele jamais saiu da mesma espelunca.

O velório foi triste, bom, cheio de lembranças, eu me via moça de saia e cabelo no ombro tomando vodka. Dedo na ferida. Existem dores do bem. Agora éramos três e Guto no centro. Depois Guto desceu lento até o fundo do buraco, chorei, joguei flores.

Kim, Jão e Eu sentamos no banco do cemitério olhando o coveiro estranho jogando terra sobre Guto. Jão começou a rir sem parar, de início tomou uma cutucada de Kim e um “psiu” meu. Jão não agüentou e riu alto, eu gargalhei e chorei durante um tempo.

- Quem diria... O Guto estava vivo, hein? Disse Kim quase sem ar.
- Eu fiz até Manifesto pro cara, meu, até porrada levei. Guardei rancor por todos esses anos pra esse merda morrer de tanto tomar cachaça. O corpo da cara não saía do IML porque era até inflamável! Jão disse levantando a cabeça e respirando fundo para retomar o fôlego cansado de fumante.

Eu fiquei quieta, olhar vago perdido imensidão, passado presente e futuro, imaginando o filho da puta do Guto dentro daquela cova rindo de todos nós.