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Eu, Kim e Jão.
Silêncio sepulcral. O defunto no meio de nós. Entre nós,
ele já não estava. Parece piada, mas essa era a vida, ou
melhor, o fim da vida de Guto.
Guto era um cara
bacana que falava muitas coisas sem perceber. Vizinho de porta, bem na
frente, eu cruzava com Guto em algumas manhãs ou nos fins de semana,
quando com uma pequena mala eu descia as escadas. Prédio de muitos
apartamentos para pessoas sós, de vidas começando ou de
vidas que nem sequer começaram - ou nem começariam, deixa
isso pra lá - havia mudado há pouco. Vinda do interior queria
São Paulo de qualquer maneira. Deixei as festas e os moços
de casar de lado para dominar os livros que me levariam até a cidade
desejada através do ingresso em uma faculdade pública.
Tensão, choro,
risos, abraços, meu pai sentado sozinho na varanda. Minha mãe
com um álbum de retrato nas mãos. Adeus. Assim foi. Dinheiro
economizado deu para o ônibus, misto-quente e suco de laranja na
rodoviária. O resto bem guardado pagou os primeiros meses do aluguel
mais barato e cheio de baratas que a cidade possuía. Tanto faz,
era próximo da Faculdade que eu cursava no centro, assim economizava
com o transporte. O trabalho de digitadora também era próximo
de casa e não demandava uso de ônibus.
Com o que sobrava,
comprava livros velhos e passagens para visitar meus pais no interior
aos finais de semana, sim e não. Daí, num desses dias com
a pequena mala, Guto me ajudou a descer pelas escadas. A mala não
era pesada, mas ele gostava de ajudar, de olhar minhas pernas, de dizer
que eu era bonita, de me ver enrubescer, de tossir baixinho então,
e contar alguma história estranha.
Guto carregou minha
mala durante um ano e quando voltei das férias em fevereiro, percebi
que sentia saudades. Então bati em sua porta levando um pouco dos
biscoitos de goiaba amanteigados que minha mãe fazia e ele me chamou
para entrar. Eu entrei, ouvi música, tomei vodka, achei engraçado
os seus desenhos pregados pela parede e seu cachorro vira-lata sem a pata
traseira esquerda que se chamava Meu. O Meu era um cara,
meu. Ele explicou isso e muitas outras coisas. Quando eu chegava
da faculdade de noite, isso lá pelas onze e tanto, Guto abria a
porta e eu acabava entrando. Vodka, cigarro, haxixe. Basquiat, Manara
e a antigravidade dos buracos negros. Alguns meses depois, ele levava
o café da manhã na cama e fazia figuras dadaístas
com pedaços de pão colados com margarina. Quando discutíamos,
ele encarnava um personagem psicanalista que anotava todas as minhas proposições
atenciosamente, e depois as lia imitando meus gestos. Eu ria, ele também.
Guerra de travesseiros, correria, ele me namorava sentado na janela, brincando
que pularia para provar seu amor.
Eu aceitei o namoro
como os dias passavam, e andava de mãos dadas nos finais de tarde,
aos sábado, na região da Sé procurando por livros
em sebos. Eu já não mais reparava no cabelo que ele cortava
sozinho no banheiro deixando as aparas espalhadas pelo chão. Nem
na preguiça de fazer a barba que por vezes irritava meu rosto.
Ele compensava com inúmeras histórias, sonhos, fantasias,
desenhando meu pé detalhadamente enquanto eu estudava Antropologia.
Kim e Jão,
grandes amigos de Guto, faziam fanzines, instalações, recitais,
tudo que não dava dinheiro algum. Viviam pobres como Guto, tomando
vodka, fumando tudo que não era cigarro e conversando até
o dia amanhecer e anoitecer, amanhecer, por aí vai. Eu quase me
irritei, mas não consegui. Entre uma vida e outra, lá era
a melhor. Era o grande caos maravilhoso e livre. Era criatividade, sorrisos
e cumplicidade. Éramos quatro, e nessas horas eles nem sequer notavam
que eu era mulher. Jovens e conquistadores de uma dimensão inabitada,
juntos pintamos as paredes do apartamento com frases que exprimiam o desejo
de uma vida mais completa. Quando mais alterados, pintamos parte da escada
comum e da porta de entrada. Quase expulsos, só eu tinha dinheiro
para algum sustento real. Minhas economias acabavam e nem sequer ligações
para o interior eu fazia.
As reuniões
diminuíram sua intensidade então, era coisa da expiação
da polícia e vizinhos. Tudo ficou pior com o golpe. Caras fechadas,
pancadaria na faculdade, ruas estranhas, o ar denso e pegajoso. Guto parecia
triste e faltava alguma coisa dentro dele. Ele me dizia cheio de sombras
e com a voz muito fraca que já não era mais tempo. Eu na
faculdade só pensava nele, e no trabalho também, e no caminho
de volta. O tempo todo. Tentei acalmar, tentei consolar, tentei entrar
dentro de sua ferida enorme para cicatrizá-la com beijos e abraços
e com tudo que eu tinha de bom na minha vida.
Kim e Jão
o levavam para a rua, para eventos, para shows, para novidades, e Guto
a cada dia encolhia mais os ombros. Ele já não achava a
proporção, a razão e a medida do viver. É
certo resumo da sua angústia.
Os meses passavam
e tudo era pré-fabricado e de grandes mentiras e medo. Voltava
para casa, um ar assustada natural e comprei quindins brilhantes para
Guto. Ele não estava. Arrumei a bagunça e senti sono. Dormi
no sofá acordando com qualquer e todo ruído que a noite
no Centro pode produzir. Isso durante três meses. Eu me formei e
foi o dia mais triste da minha vida. Guto nunca mais voltou.
Eu estudei mais,
fui assistente de mestres, fiz mestrado, fui professora e doutora, continuei
no Centro, apartamento bem maior, cheio de cômodos, casei com outro
doutor. Alguns anos passaram e brigávamos pelo cachorro, pelo apartamento,
pelos quadros na parede. Kim e Jão continuaram por aí, e
por vezes eu emprestava algum dinheiro a eles e ouvia histórias
já nem tão surpreendentes.
Dias comuns. Eu saía
de um dia longo de bancas e teses, era outono e um frio azul descia do
céu e achei tudo muito bonito. No carro, passei batom e notei que
meu rosto era envelhecido muito pouco. Chegando em casa Kim e Jão
estavam sentados na padaria do lado. Paguei a conta deles e chorei bastante.
Entramos no carro
e demorou umas 5 horas para liberarem o corpo do Guto. Não éramos
familiares e apenas contataram o Kim porque o Guto carregava seu velho
endereço, e por bem ele jamais saiu da mesma espelunca.
O velório
foi triste, bom, cheio de lembranças, eu me via moça de
saia e cabelo no ombro tomando vodka. Dedo na ferida. Existem dores do
bem. Agora éramos três e Guto no centro. Depois Guto desceu
lento até o fundo do buraco, chorei, joguei flores.
Kim, Jão e
Eu sentamos no banco do cemitério olhando o coveiro estranho jogando
terra sobre Guto. Jão começou a rir sem parar, de início
tomou uma cutucada de Kim e um psiu meu. Jão não
agüentou e riu alto, eu gargalhei e chorei durante um tempo.
- Quem diria... O
Guto estava vivo, hein? Disse Kim quase sem ar.
- Eu fiz até Manifesto pro cara, meu, até porrada levei.
Guardei rancor por todos esses anos pra esse merda morrer de tanto tomar
cachaça. O corpo da cara não saía do IML porque era
até inflamável! Jão disse levantando a cabeça
e respirando fundo para retomar o fôlego cansado de fumante.
Eu fiquei quieta,
olhar vago perdido imensidão, passado presente e futuro, imaginando
o filho da puta do Guto dentro daquela cova rindo de todos nós.
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