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A mancha

 

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por Bianca Rosolem
 

Ele levantou. Esticou bem os braços, coçou os olhos, e caminhou até o banheiro. Escovou os dentes, lavou o rosto e notou uma erupção na pele, no canto da boca, especificamente.

Abriu a gaveta de remédios, a terceira de cima para baixo, e pegou um ungüento qualquer. Passou levemente no local e notou que não sentiu dor, ardência ou prurido. Logo, não poderia ser grave. Fez um longo xixi, pausado, como se desfrutasse de um prazer tão sublime e desejasse assim prolongá-lo ao máximo. Ao subir a calça do pijama azul, notou que sua barriga adquiria um formato redondo e projetado, a dita gordura localizada. Pensou no café da manhã. Comeria pão com manteiga, fresquinho e quente, que certamente Maria já deixara sobre a mesa da cozinha. O pão no centro da mesa, em um cestinho, a manteiga ao lado com a faca acima, o leite, o café, quentes também, estariam sobre a mesa. Sentiu fome.

Até a cozinha, passou pelo corredor, desceu as escadas, passando pela sala. O dia estava claro e parecia querer esquentar. Na cozinha, comeu o desjejum ouvindo a empregada cantarolando no quintal enquanto estendia a roupa lavada. Terminado o café, Carlos fez o caminho inverso - sala, escada, corredor - e novamente se dirigiu ao banheiro. Tirou o pijama colocando-o sobre o cesto de roupas e tomou uma ducha não muito rápida. Mas nem longa também, foi suficiente para higiene detalhada. Enrolado na toalha, pegou o barbeador. Neste momento, notou que a mancha crescera o seu dobro inicial, ficando avermelhada e muito disforme. Carlos, bastante surpreendido, não soube como reagir. Sem dor, sem coceira, a mancha adquiria um aspecto repugnante.

Carlos deveria colocar o terno, como de costume, pegar o carro e trabalhar. Mas, agora, em tantos anos, ele possuía uma mancha na face, grande, vermelha, estranha, que queria tomar todo seu lado direito. Ele sentiu a ambição da mancha, percebeu que ela tomaria mais porções do seu rosto. E rápido, vide o crescimento sobrenatural ocorrido ao longo de seu café da manhã que durava habitualmente entre 15 e 20 minutos.
Percebeu que, encostado na pia, perdera uns 5 minutos, tempo este suficiente para vestir as calças e a camisa, e portanto, agora, deveria estar colocando a gravata. Mas, a mancha o importunara e provavelmente o faria chegar atrasado no escritório.

Chegando atrasado, todos notariam sua presença, principalmente a recepcionista nova que gostava de saia curta e calcinha branca. E, assim, todo o escritório veria ou saberia de sua mancha. Ele ficaria constrangido, certamente, pois sempre fora notável por sua discrição e pontualidade.
A mancha, ainda, provavelmente cresceria no caminho do trabalho. E, como estava já 15 minutos atrasado, certamente pegaria o tráfego congestionado na Avenida Brasil. Desta forma, quando pisasse no escritório, 45 minutos após seu horário habitual, a mancha, por certo, dominaria toda a face direita. E todos a veriam. Até a calcinha da Aline recepcionista ficaria escandalizada.

Tomado de assombro e terror, Carlos sentiu que a mancha dominava mais que a sua face, ela se apoderava, lentamente, de seu auto-controle.
Passados mais 20 minutos, absolutamente atrasado e miserável, Carlos deitou na cama, e estranhou a claridade do quarto durante a semana. Sentiu a mancha grande, enorme, e uma angústia jamais vivida. Desta maneira, Carlos adormeceu estranho, pensando no escritório, no relógio e na reunião das 4 da tarde. E na calcinha de Aline, sempre com a saia curtinha e a postura atrevida. E pensou em ligar para sua esposa, mas preferiu esperar ela em casa chegar.