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Eu no sofá,
a TV na mesinha.
Abri o envelope e olhei as lâminas. Ossos e sombras em tons de cinza-azulado.
E a manchinha mais escura. "Está vendo ali?", disse a
médica. "Não", respondi. "Tira qualquer mancha",
disse a dona-de-casa felicíssima. "Qualquer mesmo?",
me pergunto, quase me convencendo a comprar o milagroso sabão-em-pó.
E olho a mancha. E a lâmina me olha. Sim, aquela caveira me fita
e enxerga a si mesma. Um tenebroso espelho de fumaça. "É
muito melhor que manteiga", tenta me convencer a mãe de uma
família perfeita cuja felicidade depende apenas de uma margarina.
Largo meus ossos e vou até a cozinha. Não tenho margarina.
Volto para sala e olho novamente a caveira em cima do sofá. Sorrindo
com sua manchinha na cabeça. "É maligno", disse
ela. E olho para a família sorridente com sua margarina. E consigo
ver suas caveiras por baixo de suas peles perfeitas e roupas impecavelmente
limpas. Por dentro, todos já são o resultado de suas próprias
mortes. Sem as vestimentas, sem a pele, sem a carne e sem qualquer órgão
que nos faz vivos, somos um simples caroço. Vai-se a fruta e ele
permanece. Rijo e inútil. "Sua vida nunca mais será
a mesma", diz a outra mãe de família, caveira sorridente,
dentes branquíssimos. Ela não tem manchas na sua cozinha
- diferente das que usaram os produtos da concorrência -, mas tem
uma em seu seio esquerdo que tanto o seu produto, quanto o da concorrência
não podem apagar. Mas ela sorri. "Seu sorriso mais branco",
"A vida em suas mãos", "Preço baixo e qualidade",
as caveiras seguem desfilando seu contentamento. Em seus mundos, não
há a morte, mas a margarina perfeita. Não há problema
sem solução. E não há manchas. Outra vez,
a margarina. Volto à cozinha, abro a geladeira. Não, não
há. Há um pêssego mordido. Sem casca, a polpa meio
seca, o miolo marrom me espiando. Pego a fruta e sinto a dor. Caio de
joelhos, a fruta rola para a sala. "Tração nas quatro
rodas". Me arrasto em direção ao telefone. "Tudo
ao seu alcance". Preciso de ajuda. "Tudo o que você precisa,
encontra aqui". Preciso discar um número. "As melhores
tarifas". Mas, mais do que tudo, preciso pegar o controle remoto.
Clic.
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