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O saquinho de chá mergulha e emerge na xícara preto-e-branca sem pires. Os castelos da França repousam em manchas de sol que entram pelas janelas. Transeuntes se molham na chuva forte, entre os carros, os guarda-chuvas, as poças, nenhuma estrela no cume escuro do céu. O pianista acompanha a velha bailarina no esforço do pas-de-deux. Um gato espera pelo seu dono atrás da porta de entrada. No teatro fechado, o homem varre o chão de frente ao palco. A menina japonesa refaz o origami do pássaro em seu quarto, enquanto na cozinha da casa ao lado outra moça chora um amor não-retornado. O saquinho de chá entra e sai da xícara preto-e branca e na página em branco da folha esboçam-se algumas vogais. Um menino brinca sozinho com dois bonecos no canto da sala. Não há mais ninguém ali. Um cão olha a rua para atravessar. No alto do morro, o padre abre as portas da igreja enquanto o sacristão rouba uma maçã da cesta de doações. Uma mulher colhe macelas na beira da estrada ao amanhecer. O canário canta sozinho na casa. Na piscina, folhas de outono ouvem. Um jovem assiste na TV à corrida pelas pequenas cidades marrons do interior, enquanto outro abre um livro na estação do metrô. O rio corre. Uma torta de damascos cai no chão do amplo salão esparramando cheiro de baunilha. O chá esfria na xícara. O relógio pára. Um inuit raspa a carne de uma foca no vasto campo de neve. Um violinista esfrega o suor da testa na última nota. Um nadador atravessa os quilômetros iniciais da arrebentação. Gravatas se afrouxam na saída do imenso edifício de corretores em passos rápidos. Sua foto persiste no fundo do texto a ser escrito. O chá já está pela metade. O escritor esquece da palavra certa ao ouvir o telefone tocar. Duas ondas se chocam na praia fria de inverno. Um peixe de aquário me ouve falar de sua ausência. Cafés são tirados com pressa para o balcão do garçom. No campo de tulipas amarelas, pousa um gafanhoto. Um casal discute na saída do cinema, o rapaz evita brigar. Na maca, alguém chama pelo seu gato. O chá fica mais claro, a medida que acaba. Uma menina passeia com sua cachorra enquanto escreve uma mensagem no telefone para alguém que espera ansioso por isto. O vento sopra no deserto, sobre os beduínos. O fim da xícara de chá contempla a cidade em neblina nas minhas mãos. Um baleia repousa na entrada da baía vazia. Uma máquina datilografa uma carta. Uma tempestade se anuncia ao longe, no horizonte de uma casa de fazenda. Os cavalos se agitam. Uma pequena estrada de chão leva ao mar. Alguns pescadores arrastam o barco ao mar no início do dia. Carros congestionam as vias de uma cidade e buzinam. Um violista encerra “La Mer” para seu amor. O último gole do chá se toma frio, apesar de palavras se completarem no vidro embaçado, na folha em branco, enquanto eu espero por um milagre ou por pequenas coincidências que formem um sentido. |
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