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Senhoras e senhores,
apresento-lhes o jogo do palito! Palito? "Jogo do palito"? Devem
estar perguntando-se, entre curiosos e pasmos, os meus estimados leitores.
Sim, palito, palitinho, palitinho de dentes, aquela coisinha horrorosa
de madeira que alguns indivíduos utilizam como escova de dentes,
sabem? Pois, saibam que essa não é a sua única utilidade.
Há alguns meses, descobri que o tão popular palitinho de
dentes pode ser usado como instrumento (ou apetrecho, sei lá) de
um jogo intitulado "jogo do palito", ou apenas "palito",
para seus praticantes mais freqüentes, engajados, sérios -
profissionais da coisa, mesmo. Sim, o "jogo do palito", ao menos
entre os meus amigos (do sexo masculino) mais íntimos, é
considerado um jogo sério, seríssimo. Não é
qualquer um que encontra-se habilitado a praticá-lo! As crianças
são proibidas e as mulheres, bem, as mulheres não são
lá muito bem-vindas... O que os meninos preferem, de verdade, é
jogar só entre eles mesmos.
Passo a explicar,
então, o afamado jogo. Prestem muita atenção! O jogo
sempre acontece ao final de um encontro em algum restaurante ou bar, quando
estão à mesa amigos que terminaram de almoçar, jantar,
ou fazer um happy hour prolongado. O perdedor do jogo deverá pagar
a conta. Não há "um" vencedor no jogo. Há
vários. Mas há um infeliz (que na maior parte das vezes
sou eu, apesar de que, nas últimas duas semanas, venci duas vezes!)
que perde, e arca com toda a despesa. Pois bem, cada participante toma
posse de um palitinho de dentes e quebra-o em três partes iguais.
Cada participante coloca o número de partes do palito que desejar
em sua mão fechada (a mão direita, descobri isso em uma
das minhas últimas partidas!), e coloca a mão em cima da
mesa. A outra permanece escondida, também fechada, embaixo da mesa,
de preferência. Verifica-se o número total de palitos que
existem "na mesa" (este é um dos "termos técnicos"
do palito: "na mesa" significa naquela rodada). Sabendo o número
total de palitos, cada participante, em ordem, passa a tentar adivinhar
quantos palitos há "na mesa". Essa adivinhação
tem toda uma técnica, que eu, sinceramente, até hoje não
fiz a menor questão de querer entender.
Diz uma das minhas
amigas que não há lógica alguma no jogo, que é
pura sorte. Mas os meninos inflamam-se, indignados, como se isso fosse
a maior heresia da história da civilização ocidental
e dizem "Sim, claro que tem, tem a ver com lógica matemática,
como não?!!!". E eu, que assumidamente odeio números
e contas e ciências exatas, chuto, portanto, qualquer número
que vier em minha cabeça, que esteja dentro dos limites do que
está "na mesa" (vai ver é por isso que perco tanto...!).
Já os meninos
consideram dominar a técnica da adivinhação como
algo fundamental, essencial. Utilizam-se até de expressões,
criadas por eles (que aqui decidi chamar de "termos técnicos"),
como "dois é quatro", "cinco é um",
"lona" (que significa nada de palitos na mão), "é
preto no branco" (algo como "é agora ou nunca",
sei lá, acho que é isto), e outras insanidades desse gênero...!
Pois bem, os excepcionais indivíduos que conseguem adivinhar o
número de palitos que existem nas mãos fechadas de todos
os participantes vão se livrando aos poucos de seu pedaços
de palitos, até ficarem sem nenhum. Neste momento, saem do jogo,
livrando-se, também, da conta. Quando restam apenas duas pessoas,
o jogo se reinicia, ficando cada uma com três pedaços de
palito nas mãos novamente. Essas duas pessoas estão na "final"
(outro "termo técnico"). Quem perder, será premiado
com o pagamento da conta.
Pois então
eu dizia que, para os meninos, o jogo de palitos é coisa muito,
mas muito séria. Disputam o palito como se estivessem disputando
uma final de Copa do Mundo. A "Liga Profissional Paulistana do Palito",
denominação que acabo de criar para os meus queridos amigos
competidores deste nobre esporte, é quase como uma Máfia.
Assim mesmo, com "M" maiúsculo. A "Máfia
do Palito" é apenas um exemplo (ou uma verdadeira constatação)
do alto grau de cumplicidade e da enorme capacidade de associação
existente entre os homens. As amizades masculinas são peculiares,
elas têm regras, como tem o jogo do palito. Regras que devem ser
conhecidas e cumpridas, sob pena de exclusão do "clube".
Entre os meninos, formam-se verdadeiras irmandades, o que os falantes
de língua inglesa chamam de brotherhood of men. Os homens formam
uma classe tão unida que até mete medo. Apoiam-se em qualquer
empreitada. Não questionam. Não pedem explicação.
Não se explicam. É mesmo uma Máfia. Não há
quem não tema a Máfia. Nada que se fale ou se comente ali
sai dali, nem sob severíssima "tortura". São os
meninos capazes de criar histórias fantásticas para proteger
uns aos outros. E, sabe-se bem, na Máfia não há perdão.
Nenhum deslize é perdoado. Quem assistiu o clássico de Coppolla
da década de 70, "O Poderoso Chefão" (The Godfather)
sabe bem do que estou falando!
A nós, mulheres,
diante de tudo isso, cabe tentar compreendê-los, e, sinceramente,
tentar aprender com eles a nobre arte da amizade. Estou dizendo alguma
mentira? Desculpem-me, meninas...
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