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Não conheço
nenhuma história de tartaruga que seja normal. Dizem que tartarugas
são bichos que trazem sorte e bons fluidos para uma casa. Vai ver
você nem sabia disso, leitor. Mas é o que se diz por aí.
Compre uma tartaruga e terá sorte. Sorte, sei lá a natureza
dessa sorte: no amor, no jogo, nas finanças, na saúde. Não.
Na saúde, não. Nunca ouvi alguém dizer, "Ai,
que sorte que tenho na minha saúde, nunca pego gripe". Está
maluca a autora.
Mas, histórias
de tartarugas? Tartarugas são bichinhos lentos, lentíssimos.
Engraçado associá-las com sorte, bons fluidos. Ninguém
quer sorte lentinha, lerdinha. Todo mundo quer sorte rápida, instantânea.
Pergunto-me: comprei uma tartaruga, ok. Quanto tempo vai levar pra bichinha
começar a me dar sorte? Não sei. E então você
passa cem anos de azar vivendo com a tartaruga, até que um dia
ela morre: antes de você. "Que porcaria de sorte é essa???".
Imaginei (imaginem) um velhinho bem velhinho, enterrando o cadaverzinho
da tartaruga e praguejando...
História de
tartaruga número 1: meu filho ganhou uma tartaruga. Não,
na verdade, é um jabuti. É diferente de tartaruga, não
vive na água, vive na terra, em um terrário (que é
igual a aquário, mas sem água. Não, não estou
subestimando o meu caríssimo leitor, de maneira nenhuma, estou
explicando só porque eu não sabia o que era um terrário
até o jabuti vir morar conosco). Pois jabuti é um pouco
mais rápido que tartaruga. Dá umas corridinhas de vez em
quando. E pode viver até cem anos, ou mais. Bom, claro, você
já viu tartaruga estressada? Naquela vida mansa, nem posso imaginar
como poderia estressar-se...! Pois eu me estresso só de olhar pra
ela (ou ele, no nosso caso, pois é um macho chamado Miguel - ótimo
nome, diga-se de passagem), fico estressada. Paradinho ali, olhando pro
nada, sem fazer nada. E ainda tem que tomar banho todos os dias. Banho???
Sim, Miguel banha-se diariamente em um pote plástico estilo "tupperware",
com água morna - tem que ser morna, para ativar a circulação
dele. Em resumo, toma banho pra se agitar um pouco. É isso mesmo.
Não é um clássico banho relaxante, é um banho
"agitante". E o meu filho leva a sério, "Tá
na hora do banho do Miguel!". Miguel tem hora pra tomar banho. Ai,
ai. Mas o pobre Miguel não durou muito. Um dia, alguém percebeu
que ele parecia estar paradão há muitas horas. Na verdade,
tinha estado parado desde a noite do dia anterior, mas, como tartarugas
em regra são paradonas, ninguém deu muita confiança.
Fomos examinar, na manhã seguinte. O terrário fedia, e o
Miguel falecera. Tadinho, seu mini-cadáver foi direto para o lixo.
Meu filho ficou muito triste com a perda do Miguel. Voltamos à
loja de animais. Contamos a história ao vendedor, que disse que
talvez ele tenha ficado doente ou tivesse tido alguma queda. Meu filho
olhou-me de canto. Eu derrubara o Miguel uma vez, muitos meses antes.
Coitado, foi um tombo e tanto. Meu filho me culpou pela morte, depois,
no carro a caminho de casa. Eu não senti culpa alguma. "Ué,
mas ele, em tese, não deveria viver cem anos?", perguntei-me.
Mas fiquei calada, ora, viveria sem anos se uma mãe histeérica
não o tivesse derrubado porque levou um susto quando uma das patinhas
ásperas do bicho tocou-lhe o dedo! Pobre Miguel, foi uma exceção.
Compramos outro, que foi imediatamente batizado de "Miguel II".
Miguel II mexia-se muito menos que o outro. E mal comia. Ligamos para
a loja. Levamos Miguel II para trocar por outro, com medo que morresse
também. "Miguel III" viveu conosco por mais alguns meses.
Morreu também, cadaverzinho duro e de olhinhos fechados também
no lixo. Causa mortis: não sabemos até hoje. Vai ver nossa
casa tem uma maldição contra jabutis...
História de
tartaruga número 2: um aluno contou-me hoje a história de
uma tartaruga que teve na infância. Adorava o bichinho. Não
perguntei se ele dava banho na dita cuja. Mas o nome era Guida, apelido
da tia do meu aluno, que chamava-se Maragarida. E era tartaruga mesmo,
isso ele disse. Tartarugas têm a mania de se esconder. Qualquer
cantinho é delicioso. Vivem literalmente "à margem".
Um belo dia, a tartaruga do meu aluno desapareceu, "Cadê a
tartaruga, onde está a coitadinha", etc, etc. Concluíram
que a pobrezinha havia sido colocada por engano no lixo. Como gostava
muito de se esconder (seguindo a tradição da espécie),
a família concluiu que ela teria se escondido em uma caixa de papelão
grande onde costumavam colocar sacos de lixo. Sem querer, alguém,
ao retirar o lixo da casa, retirou a tartaruga junto. Triste fim, o dessa
pobrezinha. Bom, cadaverzinho de tartaruga no lixo.
História de
tartaruga número 3: eu e meus irmãos, todos com menos de
dez anos, ganhamos dos meus pais uma tartaruga. Felizinhos que ficamos
com ela, bem lentinha, não incomodava ninguém, vivia numa
bacia de plástico cor-de-rosa, com água, claro, porque ela
não era jabuti. Nome: Margarida! (Coincidência, não???
Coisas de tartarugas...). Margarida viveu conosco por pouco tempo. Um
dia, assim como a do meu aluno, ela desapareceu. Meu pai nos contou que
a tinha visto pulando a janela. "Pulando a janela?". Leitor,
não me pergunte como acreditamos nisso. Como o pequeno réptil
teria escalado a parede para chegar até a janela era uma questão
que nem passava por nossas inocentes cabecinhas... Éramos pequenos,
provavelmente acreditávamos em tudo que nosso pai nos dizia. Bons
meninos. Devo confessar que acreditei nessa tamanha bobagem por um bom
tempo. Obviamente, com o passar dos anos percebi que era uma "mentirinha
inocente", mas nunca soube do verdadeiro paradeiro de Margarida.
Recentemente, quando meu filho ganhou o Miguel, perguntei ao meu pai,
e ele confessou: ela morrera, e ele não quis contar para nós.
Como se pular pela janela do sexto andar não matasse tartaruga...
Bom, mas isso não importa. O que importa é que dizem que
elas vivem até cem anos... A do meu aluno e a nossa obviamente
ficaram fora da estatística. Resultado: cadaverzinho provavelmente
no lixo também.
História de
tartaruga número quatro (e última): viagem à praia
em um Opala Comodoro branco ano 1979, mesmos personagens, meus irmãos
e pais. Vemos na estrada uma enorme tartaruga, atravessando com a maior
calma de tartaruga do mundo. Meu pai freia bruscamente. Minha mãe
grita. A gente não entende nada. Ele pára o carro. Ele desce
do carro. Ele pega a tartaruga no colo, sob nossos olhares pasmos. Ele
a coloca - pasme você, leitor - no porta-malas do Opalão.
Provavelmente uma dívida com a tartaruga que quase atropelou: dar
um "lar" a ela. Ela vai passar o verão conosco, na casa
de praia da minha avó materna. Todos os primos ficam felicíssimos,
ela foi a atração do verão. O que aconteceu com essa?
Não faço a mínima idéia. Lembro como ela chegou,
mas não lembro como partiu. Gosto de pensar que ela não
morreu. Gosto de pensar que ela está até hoje caminhando
pelas estradas do litoral gaúcho (talvez brasileiro), sendo muitas
vezes quase atropelada e outras vezes recolhida por motoristas bonzinhos
como meu pai, pra passar o verão com as crianças e fazer
a alegria delas. Vai ver qualquer hora encontro com ela em uma estrada
qualquer, já velhinha, apoiando-se numa bengalinha, chapeuzinho
de surfista, óculos de sol. E sempre levando sorte a todos. Devagarinho.
E sempre.
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