|
Um espinho lhe picava
o dedo da mão esquerda quando Heitor pressionou o botão
da campainha.
Ouviu latidos se
aproximando e gelou. "Ela tem um cachorro", lamentou com a cabeça
baixa. Podia ser um pássaro na gaiola ou um peixe no aquário.
Um camelo no quintal teria lhe deixado feliz. Mas não. Marta tinha
um cão. Batidas na porta e arranhões. Era ele. Latindo,
arfando e Heitor com os olhos fechados, unindo forças para quando
a porta abrisse e... Fingiu um susto quando o cachorro pulou em sua direção.
"Não se preocupe, ele não morde", disse a senhora
de blusa florida. Eles nunca mordem. Não para os donos. Eles são
bonzinhos, inteligentes, são o orgulho felpudo da casa. "Ele
não é uma gracinha?". Não, minha senhora, ele
não é. É feio e está com as patas em cima
de mim, interessadíssimo em me derrubar. "Acho que o Fluffy
gostou de você". Não posso dizer o mesmo.
Eu o odiei de imediato. Eunice se apresentou e chamou o marido para me
cumprimentar. George com G-E-O veio prontamente me saudar e ensinar-me
o seu nome. Ambos eram sorridentes e simpáticos. Mas nenhum percebeu
meu desconforto enquanto o cachorro insistia em cravar as patas nas minhas
pernas. Marta desceu as escadas no momento em que entrei na sala de estar.
Parecia que estava esperando no topo. "Vejo que já conheceu
o Fluffy. Ele não é um amor?". Não, não
é. Mas meus sentimentos estão em desacordo com o movimento
da minha cabeça. Estico a mão com as rosas e o cão
pula em direção às flores. Gritos, risadas e Marta
agachada recolhendo as rosas do chão dizendo que eu não
precisava ter me incomodado. Incomodado... O único incômodo
estava sentado ao meu lado latindo e babando com a língua para
fora. Não era pra ter sido assim... Imaginei esse momento tantas
vezes em minha cabeça, de maneiras diferentes, às vezes
ela sorria, às vezes ela simplesmente cheirava as flores e seus
olhos brilhavam. Mas em nenhum deles ela recolhia as rosas do chão.
Nenhum, além desse. Marta sobe as escadas e o cão late insistentemente
para mim. E os simpáticos senhores seguem conversando comigo me
levando até o sofá, onde posso me sentar e ficar mais próximo
das patas de Fluffy, além de estar plenamente ao alcance de sua
baba. Ele prontamente apóia as patinhas dianteiras nos meus joelhos
e fica me encarando com seus olhinhos pretos e latidos agudos. "Fluffy,
desce daí!", diz a mãe de Marta sem se importar com
o fato do cachorro não obedecer suas ordens. E começa o
esperado interrogatório por parte dos pais da moça. Basicamente,
querem saber quem eu sou e o quanto ganho. Divido meu tempo entre escolher
respostas maduras e fuzilar Fluffy com o olhar...
Subi os degraus correndo
até o meu quarto. Estava eufórica com a presença
de Heitor em meu lar. Finalmente, ele conhecia minha família e
logo tomaria parte nos porta-retratos da sala de estar. As rosas deixaram
um trilho de pétalas pelo corredor. Alguns caules estavam partidos,
as flores pareciam um tanto despedaçadas, mas mesmo assim procurou
um vaso para colocá-las. Sentou-se na penteadeira e olhou-se mais
uma vez no espelho. Não ficou satisfeita e resolveu refazer o cabelo.
Queria deixar os pais a sós com ele por um tempo, então
podia dar-se esse luxo. Entre uma mecha e outra, ouvia os latidos de Fluffy.
Certamente estava brincando com Heitor. Depois de muitas mexidas aqui
e ali, estranhou o silêncio. Resolveu descer e juntar-se novamente
à família. Já nos últimos degraus, podia escutar
o lamento desbotado de sua mãe. Eunice estava sentada no sofá
ao lado de George com G-E-O, que a abraçava. Ao separar vagamente
os lábios e perguntar por Heitor, seu pai aponta para a cozinha.
Marta vai até a porta e ouve uma respiração rápida
e profunda. Ela olha o forno, uma cadeira caída e os talheres de
prata espalhados no balcão. E leva seu olhar aos retratos da família
na parede. Entre os sorrisos conhecidos, destaca-se, emoldurado, o rosto
refletido de um homem chorando.
|
|