|
Fazia já
um tempo que não entrava ali, naquela casa que antes parecia enorme,
cujos sofás eram como camas elásticas, onde ele e seus irmãos
passavam horas imaginando histórias de acampamentos, de florestas
e perigos e coisas de criança que são tão boas por
um tempo e depois se desfazem pelo próprio tempo e ficam em algum
lugar da memória e do próprio tempo, como uma imagem embaçada
e em câmera lenta. Como um sonho, talvez.
E então aquele cheiro de coisas conhecidas e idas tão presentes
na mente, no coração, nas narinas.
A vó velhinha
que na verdade foi sempre velhinha, agora o recebe mais velhinha ainda
(porque agora é duas vezes avó: é bisavó)
de braços abertos e com muita comida, sempre muita comida. Sempre
houve comida, e a comida enche os olhos e aquece, é amor em estado
bruto: o estômago conquistado.
E na casa mora também
a tia, a tia tão fechada em seu próprio mundo, mas também
tão aberta a tudo, por ser criança ainda, uma criança
em um corpo adulto (vai ser sempre criança, vai pensar sempre como
criança, vai morrer criança, porque uma doença genética
assim o quis), e por ser para sempre criança, vai ser para sempre
feliz, porque não vai preocupar-se, nunca, nunca, com nada, nada.
Ou outros à volta preocupam-se, vão para sempre preocupar-se
com seu destino, principalmente a velhinha, sua mãe, sua eterna
guardiã.
Mas então
ele está ali, novamente, após tanto tempo, levando os filhos
para visitarem a velhinha e a tia, para que elas desfrutem da juventude
plena e absoluta das crianças, para que preencham, nem que por
algumas horas, suas vidas solitárias e ao mesmo tempo tão
cheias de amor. Para que se animem, para que sintam, para que sorriam,
para que tirem a dor de seus corações sofridos, marcados
pelo tempo passado e pelos olhares julgadores e falsamente solidários
das pessoas.
E ele então
resolve ir ao banheiro, ao banheiro onde muitas vezes entrou quando criança,
muitas vezes brincou, tomou banho, fez bagunça. E então
vai até a pia, de mármore, tão baixinha agora, e
vê dois copinhos de plástico, um de cada lado da pia, e dentro
de cada um dos copinhos, de cores diferentes, vê duas escovas de
dentes, também de cores diferentes, ali, tão sozinhas, tão
limpas e bem arrumadas, tão íntimas, tão indescritivelmente
tristes e sozinhas, sozinhas, sozinhas... E então ele chora.
|
|