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Escombros pós-modernos

 

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por Melissa de Menezes

"Os mortos anulam-se pela indiferença.(...)
A morte já não tem cena, nem fantasmática nem
política, onde representar-se, onde jogar-se, cerimonial ou violenta.
E isto é a vitória do outro niilismo, do outro terrorismo, o do sistema."

Jean Baudrillard

Quando, depois de ter deixado Helena ir embora tive que abandonar o meu apartamento mobiliado estilo jovem bem sucedido profissionalmente. Foi na terceira ou quarta semana. O síndico, desesperado, batia em todas as portas. O alarme de incêndio soou, mesmo sem incêndio. Os guardas da entrada do edifício batiam as mãos e os apitos batiam nos lábios. O portão da garagem foi arrebentado e os carros congestionavam na fuga. A buzina somava-se aos apitos, alarmes, os gritos de soprano do síndico, portas, correria e histéricos jovens bem sucedidos profissionalmente, pés e partes dos móveis suecos, das luminárias alemãs pós-modernas, estátuas do vazio.

Eu. Eu deitado, leve, noutro nível, no piso de azulejo frio, apesar do inverno, calefação desligada. Eu. Eu deitado, morto, espírito flutuante, noutro nível de razão. Muitos restos de cocaína na mesa de vidro, cristal austríaco da sala minimalista. Tudo branco, inclusive o pó, e o vômito com o qual eu bati um papo na noite passada. Sim, meu fiel companheiro, o mousse de pizza, vodka russa original, e café com leite, muito leite. Expresso da máquina de Milano. Leite holandês sabor condensado. Eu deitado, ouvindo todo aquele ruído sem sentido, vindo dos corredores e, de muito longe, uma ópera repetindo meu nome, Doutor Augusto, Doutor Augusto, o prédio, Doutor, o prédio, o chão, os tremores...

Só voltei a mim depois. Depois de quando Camila foi. Camila foi, e eu deixei. Camila deve estar passeando pelas ruas de Roma, Paris, ou qualquer lugar-comum que um descornado como eu, covarde maldito, imaginaria uma mulher como Camila de mãos com outrem. Camila me deixou, ou eu deixei Camila? Ou eu deixei Camila me deixar? Sei lá. Só sei que acordei com um estrondo. Aquilo não poderia não ter me acordado. A parede cornflower blue caiu. Um único bloco maciço, sobre a mesa, cristal austríaco, sobre as pequenas estátuas de argila de artesãos do sul da Itália, sobre as cadeiras suecas de artistas recém descobertos, sobre o tapete minimal de Milano.

Meu braço, estirado há horas ou semanas, formigava até a ponta dos dedos que desembocavam num copo de Whisky escocês, muitos anos. Algumas poçinhas de náusea de carrossel, e eu, de pijamas italianos e pantufas imundas da miséria dos últimos tempos. Escorei na parede do corredor e me encaminhei para o ponto zero do estrondo. Algumas outras coisas estavam caídas e quebradas, pelo chão, e eu fiquei imaginando se foi minha fúria, ou Camila teria voltado. Abri a porta da frente do meu novíssimo apartamento. Silêncio e poeira. Pela luz, as portas dos outros dúplex estão abertas. Lá vou eu. Chinelos arrastando pelo pó, o síndico não tem feito um bom serviço por aqui, quê é isso? Meias? Meias no corredor? E tem mais. As portas abertas dos vizinhos, e os vizinhos? Um silêncio. Os apartamentos revirados, pedaços de som modulado metal Sony, estátuas e quadros e porta-retratos quebrados, ursos de pelúcia de Taiwan, taças de cristal, opa!, tem uma taça de cristal polonês inteira. Voltando.

Perdi uma parede, ganhei uma taça. Meus MDs formam uma trilha até o banheiro. Ligo o chuveiro. Nada. Aperto a luz em spot indireto. Nada. Eu paguei as contas deste mês? Ou eu dormi tanto depois que Camila sumiu? Em que mês estamos? Que me resta? Volto para a cozinha, devagar, os corredores brincam ao meu redor, e os restos de parede cornflower. Abro a geladeira, tudo quente. Jarra de água e eu voltamos ao box do banheiro, banho de paninho francês. Quê está acontecendo, afinal? Back up.

Eu cheguei da agência, vestia meu terno cinza, minha gravata azul, estacionei meu Mustang 68, de colecionador, subi pelo elevador de espelhos e comando de voz, ele não responde às minhas queixas cotidianas, assim como meu psiquiatra, abri a porta do apartamento, de madeira escura clássica, e...nada. As maquiagens Shiseido, as calças jeans CK, as camisas DKNY, os sapatos mocassim estilo Jackie O'. Tudo havia sido jogado dentro de uma mala qualquer e ido embora. Um bilhete sintomático aderido com retidão à geladeira amadeirada. Não dizia muito. Nem eu consegui respondê-lo, discutir com ele, argumentar, fundamentar, todas aquelas coisas banais de mim mesmo. Sentei-me com esforço na cadeira da cozinha planejada, e puxei a primeira garrafa do bolso do paletó, minha Stainless Steel Pocket Flask recheada de Absinto 63% da República Tcheca. Depois veio a noite e a vodka russa, e o whisky, e a tele-entrega de bebida vagabunda, e a tele-entrega de cocaína do meu traficante fim-de-milênio. Veio o dia, as faltas ao trabalho, as desculpas, e os corredores tortuosos, sem corrimão, que me levavam ao quarto, aos lençóis da minha cama com ela, TV ligada fulltime, dias e noites e dias que só faziam diferença nas dores de estômago e na incidência de luz sobre as janelas de parede inteira da sala, mesmo tapadas pelas cortinas automáticas. Em alguns momentos de lucidez eu não chorava. Olhava a tela pululante da TV a cabo, 240 canais, sitcoms, entrevistas, soap operas, beiseball, basketball, sexball, seriados de suspense, canal playboy, lésbicas e trepadas grupais, gays, etc., cartoons, X-files repetidos, vampiros e vampiras e, nunca, chiado de estática, sempre alguma coisa no que ficar babando, hipnotizado, sem chorar.

Não sei quando. Mas, num dia desses, acordei um pouco melhor e tomei um banho. Achei uns CDs e MDs na estante e coloquei Chet Baker, "My funny Valentine", para ser bem explícito. Nos altos prédios que batiam de frente para o meu, o movimento normal das pessoas, e isto, me incomodou. O telefone tocou lá da agência algumas vezes, e em total absorção, eu respondia aos chamados com gemidos e desculpas inacreditáveis e cômicas. Em outra vez que me lembro de ter redobrado a confiança em abrir os olhos, senti todo o chão e teto e paredes balançarem tanto, as coisas caíam e formavam rastros de cacos e objetos, e eu só virei para o lado e vomitei. Ouvi alguns gritos e passos rápidos, mas como tudo balançava, fiquei no chão e apaguei. Logo depois ouvi meu nome, numa voz feminina, mas não era Camila. Camila tinha a voz grave, então, apaguei de novo.

Saio do banho de paninho. Consigo colocar um jeans e um suéter. Calço um tênis. Está tudo quebrado. Caminho sobre estante de metal importado de algum lugar, cacos e cacos e, meu Deus!, todos meus cristais austríacos, o que eu fiz? Os CDs, os discos de vinil de Jazz, montanhas deles, misturado a quadros, blocos de parede, o lustre, os spots, copos e poças de vômito, pó, muito pó por todo lado. Vou até as amplas janelas da sala, lamentando puxar as cortinas, sistema delicado, ver o sol, saudável sol, e todos aqueles condomínios deste bairro de altos prédios de vidro e metal, High Tech, de jovens publicitários, jornalistas, midiáticos empresários bem sucedidos aos trinta anos, vivendo felizes, com suas esposas modelos, como Camila, e seus ternos Armani, Gaultier, mas assim que a cortina sobe, nenhum prédio. Nenhum prédio? Nenhum jovem empresário, nenhuma modelo, nenhum carro na rua lá embaixo, nenhuma rua lá embaixo, nem sol.