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Vai ver sou mesma
uma garota de sorte. E tenho essa mania boba de ainda me considerar uma
menina. Louca, isso mesmo. Estou a alguns meses de completar trinta e
dois anos. Mas as pessoas mais loucas ainda ao meu redor insistem em dizer
que pareço mais jovem. Hoje mesmo uma moça que mal conheço
disse que eu parecia ter vinte e três anos. E sei lá qual
o motivo bobo que me faz achar isso uma beleza, uma verdadeira maravilha.
"Tadinha, tadinha de mim", como se a juventude tornasse alguém
mais inteligente ou rico de caráter. É uma loucura como
a busca incessante da juventude é um dois maiores objetivos do
ser humano. É um clichê dos grandes, mas é tão
verdadeiro que dói, como doem todas as verdades bem verdadeiras.
Verdade verdadeira é pior que tapa na cara. Uma marca violenta
que dura um tempão.
Quando você
tem quinze anos, quer parecer dezoito, para poder ser tratado como adulto:
votar, dirigir, beber (não necessariamente ao mesmo tempo), não
ser barrado em porta de boate. Nunca fui barrada em porta de boate. E
hoje as pessoas acham que pareço oito anos mais nova. Difícil
de entender? Sim, para mim, dificílimo. Olham as minhas fotos de
vinte e poucos anos e dizem que pareço mais velha nelas do que
hoje. E eu? Fico toda felizinha... Não vou mentir. E mente quem
diz que não fica todo contentinho se alguém diz que você
parece mais novo. "Mais novo" é até melhor que
mais belo, mais inteligente, mais magro, mais feliz. Diga a verdade, você
alguma vez abriu um sorriso largo depois que alguém lhe disse,
"Ah, você parece tão mais feliz agora...". Convenhamos,
o máximo que você vai fazer é pensar que seu amigo
está meio doidinho. Ou bêbado. Ou sem assunto, o que é
bem pior.
E então, veio
a pergunta (ou constatação): estou remoçando? É
possível, em vez de envelhecer, "enmoçar"? Algumas
pessoas não envelhecem, "enmoçam". "Ai, Fulana
está "enmoçando", você não acha?
Cada dia menos rugas, menos cabelos brancos, mais memória e vigor".
Imagino esta frase sendo dita em um daqueles filmes de futuro, estilo
Blade Runner, onde as ruas da cidade são sempre escuras, molhadas
e cobertas por um fog constante, com gente estranha de com roupas esquisitas
andando pelas ruas, montes de anúncios luminosos em terceira dimensão,
carros voando, edifícios de quatrocentos andares, e de repente
surge uma cena de uma amiga dizendo pra outra a tal frase. E é
bem isso mesmo. Fonte da juventude já existe, principalmente pra
quem tem muito dinheiro. São pílulas, métodos revolucionários
de ginástica, operações plásticas, cremes,
montes de coisas que seduzem todo mundo. Tenho certeza de que se toda
a população mundial tivesse acesso a tudo isso, iria certamente
desfrutar. E "enmoçar", com o maior orgulho.
Loucura maior seria
o processo de "enmoçamento". A pessoa iria enmoçando
em ritmo acelerado, e inclusive suas células sofreriam um processo
de enmoçamento, o que possibilitaria que ela voltasse aos estágios
iniciais de sua vida. Teria novamente quarenta anos, e sofreria mais uma
vez a famosa "crise", mas ao contrário, "Nossa você
vai voltar aos quarenta, isso merece uma comemoração!",
e assim sucessivamente, voltaria aos trinta, ficando mais feliz ainda
com isso, e aos vinte, "Ah, maravilhosos vinte, quanto vigor, quanta
energia, nada me satisfaz mais do que não fazer nada", e iria
enmoçando, enmoçando, até ser novamente criança,
e então curtiria a infância ainda mais, como se fosse a primeira
vez, mas sabendo ser a segunda, a maravilhosa segunda chance, meu Deus,
as segundas chances, se todos as tivéssemos, tudo o que poderíamos
mudar. E logo ouve o choro de si mesmo, está em um berço,
é um bebê novamente. E depois disso? E depois disso, pelas
leis do enmoçamento, deveria acabar novamente em um útero
materno. Um quente e escuro lugarzinho, aquele lugarzinho perfeito de
onde saíra há muitos anos, e para onde voltaria agora, úteros
de aluguel, que acabariam por abrigar aqueles que escolhessem pelo enmoçamento.
Sim, porque o enmoçamento não seria obrigatório.
E aqueles filhos de mães de aluguel seriam chamados de "os
renascidos". E eles renasceriam e seriam recriados, por outra família,
e teriam outros irmãos, e outros parentes, e outros amigos e outra
vida, mas sempre conscientes de sua vida anterior e de sua condição
de renascidos.
E assim, acabariam
por conviver em desarmonia, pessoas que envelhecem naturalmente e pessoas
que enmoçam e renascem, porque, imagine, leitor, o caos que tal
fenômeno da ciência poderia causar? Pessoas que optassem pelo
enmoçamento não poderiam jamais ter filhos, afinal, o que
fazer com as crianças quando o pai ou a mãe começasse
a enmoçar? Imagine-se os inúmeros problemas jurídicos
e filosóficos que tal "opção de vida" poderia
causar à Humanidade? Como resolver tal situação instaurada?
Como viver assim? Imagino que haveria uma grande cisão na sociedade
mundial, separação essa que não deixaria margem para
neutralidade. Seria o estopim de mais uma guerra mundial. Bandeiras e
palavras de ordem seriam criadas: "Envelhecimento digno, sim! Abaixo
o enmoçamento!", "Segundas chances: diga sim ao enmoçamento!".
E o povo nas ruas protestaria pelos seus direitos, lutando por suas causas
tão opostas e ao mesmo tempo tão próximas, lutando
em uma guerra sem armas, uma guerra de idéias, de árduas
discussões filosóficas: reviver ou morrer?
Vai ver sou mesmo
uma garota de sorte. São quase sete e meia da noite de segunda-feira
e acabo de fazer ficção científica, pela primeira
vez.
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