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Na ponta da caneta,
pende uma dúvida.
Páro a cada frase, leio com teus lábios. Temo que o texto
paire no ar diante dos teus olhos. Que não atravesse a peneira
azul-clara e não atinja as partes certas do cerebelo. Quero dobrar
teu equilíbrio. Te deixar na corda bamba por uns instantes e te
dar a mão logo ao fim da frase. Quero que as palavras te provoquem
coceiras no queixo, seguidas de um esclarecimento reconfortante. Mas temo
a peneira azul-claro. E a entonação errada de cada linha.
Teus lábios, quando lêem, nem sempre correspondem ao movimento
da minha escrita.
Carta no cesto.
Me foge a coragem e eu ignoro a vida. Saio pra rua e deixo o saco de lixo
na entrada do prédio. A cada passo, me afasto do meu pensamento
amassado, esquecido dentro de um saco plástico. E pende a dúvida.
E surge a esperança. A possibilidade insana - porém real
- de um lixeiro que desamassa o texto, limpa as palavras e, romântico
e sujo, assume o papel de carteiro.
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