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Eu poderia começar
dizendo: "Prezados colegas!". Mas não posso. Não
sou um homem grávido, mas já fui uma mulher grávida.
Você está pensando, "Acho uma loucura considerar grávido
um homem, só porque sua companheira está grávida",
e eu digo, "Parceiro, você tem razão, também
não gosto da alcunha, mas decidi chamá-los assim, para poder
dirigir-me hoje a vocês, fantásticos homens que suportam
as grávidas durante nove meses!" Melhorou agora?
Resolvi escrever
essa carta quando ainda estava grávida de minha segunda filha,
dirigindo-a ao meu marido, que foi incansável e compreensivo durante
os nove meses de longuíssima e aflitiva espera. Mas minha filha
já está com quase um ano, e só agora tive ânimo
de escrevê-la. A idéia surgiu quando percebi que só
se fala na beleza e magnitude da gravidez pensando-se na mulher, a "portadora
oficial" do bebê. Ficamos aqui nos vangloriando de nossa possibilidade
de gestar, ficamos reclamando do peso, das dores, dos enjôos, dos
cansaços, das mudanças de humor, da falta de ânimo
para várias coisas, vá lá, tudo isso acontece de
verdade. Claro, ao mesmo tempo ficamos radiantes porque sabemos que aquela
coisinha de poucos gramas ou quilos depende exclusivamente de nós,
maravilhosas fêmeas que conseguimos carregá-las e nutri-las
durante os intermináveis nove meses...
Mas, pensei, "E
eles?". E os pobres coitados que em tese apenas contribuem com a
semente, como muitas pessoas gostam de dizer? Que culpa têm eles
de terem apenas essa missão (fisicamente falando, claro, pois não
vou aqui discutir aqui o inegável fundamental papel que têm
na criação, educação e sustento da criança)?
Ora, foram designados pela natureza a contribuírem com a (indispensável)
semente, e muitas vezes são "linchados", coitados, como
se fossem inúteis.
Seu papel não
é nada fácil, companheiros, e sei bem disso. Tudo começa
quando descobrem que serão pais. Em regra, é tudo felicidade.
Nem imaginam o que ainda os espera...! Os enjôos, cansaço,
desconforto e intolerância a cheiros (entre outras chatices) começam
rapidinho, a maior parte das mulheres os sente.
Você estava
lá, na sua vidinha feliz com sua companheira, quando, de uma hora
para outra, percebe que ela não é mais totalmente sua. Uma
pequena semente de alguns milímetros impede que vocês saiam
para um simples cineminha, apenas porque sua parceira, não se agüenta
de sono, ou cansaço, ou enjôo. Vocês precisam ir embora
correndo de um restaurante, não porque ela bebeu demais e quer
vomitar (ah, bons tempos...!), mas porque ela quer vomitar, e pronto,
e o motivo você sabe bem qual é.
Ela passa do choro
ao riso e vice-versa muitas vezes durante a gravidez, ela grita, ela xinga,
ela de repente lhe dá um beijo e fala animadamente: uma T.P.M que
parece não ter fim, e você ali, à mercê de tudo
aquilo.
Aquele cara com jeito
de "eu-traço-todas" no shopping está olhando na
direção de vocês: não se preocupe, não
há a mais remota possibilidade de estar olhando para sua mulher,
porque, sinceramente, nenhum estranho vai querer uma melancia com pernas
e braços...! É mais provável que ele esteja dando
mole para você, meu amigo! E o seu orgulho de macho que, no fundo,
no fundo, gosta que todo mundo olhe para sua mulher e pense que ela é
linda, onde fica? Ok, sem estresse, fica apenas adormecido por nove meses,
depois volta.
"Namorar",
agora, é praticamente com hora marcada. Sabe aquela desculpa da
dor de cabeça ou cansaço? Nunca foi tão verdadeira...!
Tudo bem, vai passar, mas, haja paciência...
Não, sinceramente,
como as pessoas podem não compreender e dar crédito a um
"grávido", hein? Poxa, é duro pra caramba passar
por tudo isso como mero expectador... Ela sente os movimentos do bebê
o dia todo, você só consegue sentir uns chutinhos quando
"Sua Mini-Majestade" está a fim, no final da noite, talvez.
Apesar de tudo isso,
muita coisa boa ainda está por vir, começando pela maravilhosa
sensação de bem-estar que se sente quando o bebê olha
para você pela primeira vez. Toda a dificuldade dos nove meses parece
que se vai, que desaparece. E toda sua vida muda por completo, naquele
exato instante em que você vê o seu bebê pela primeira
vez. Sua vida, como você a conhecia, nunca mais será a mesma.
Nesse momento tem-se a exata compreensão do significado da expressão
amor incondicional. Eterno. Perfeito. Não há felicidade
maior.
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