|
Final de tarde de
uma sexta-feira. Todos apressam passos para o lar. Um cego é guiado
por um menino de rua. Maltrapilhos. O velho e o menino. O cego tateia
com seu guia a calçada e o garoto vê enquanto segura seu
braço direito. Este se dirige a um mendigo que se ajeita para dormir
na porta de um banco: "Onde fica a rua 24 de maio?". Sem se
levantar o mendigo diz: "Logo ali". O cego ouve. O menino ainda
não entendeu.
A mulher aprendeu
a rezar. Agora ela sabe pedir. Sem chorar ou arrancar os cabelos. Sem
prometer demais. Ela aprendeu a realmente desejar. Agora sabe acreditar
na força do Deus. Tem a hora de falar com ele que também
é importante. E fazer o bem para receber o bem. É a lei.
"Aleluia", ela diz levantando os braços. "O pastor
falou palavras bonitas né, irmã?", ela faz que sim
com a cabeça.
Clarice foi uma escritora
do invisível e das linhas doloridas. Dos lugares que poucos ousaram
chegar. Eu também conheço outra Clarice e ela tem muito
medo. É o que ela diz.
Carlos levantou o
vidro do carro, era só uma frestinha aberta e mesmo assim. Apertou
o botão e não olhou para o lado. O vidro subiu aquele tantinho.
Ele fingiu assobiar uma música que o rádio não tocava.
Ele se sentiu mal por isso.
O menino sentiu fome,
depois cheirou cola e dormiu olhando as poucas estrelas do céu
da cidade.
Inocêncio pede
mais uma. O calor forma pequenas gotas de suor oleoso em sua nuca. A cerveja
desce gelada e refresca a cabeça. Ele olha o terminal de ônibus
e toda aquela gente. Sente um pouco de saudade da cidade no interior da
Paraíba. Certamente seu primo Josenildo essa noite dançará
com alguma morena e tomará pinga boa. "São as oportunidades",
ele disse antes de partir de lá.
Ela disse "não",
fechou bem forte a porta. Ele sentou na cadeira, bateu com força
no vaso da mesa que caiu no chão. Ela voltaria. Como sempre. Era
só esperar.
A garota tomou um
caminho diferente para sua casa, viu o dia anoitecer e observou o lugar
com as luzes acesas. Era bonito também. Imaginou uma música
e sonhou um pouco. Só até onde era permitido. Para ninguém
se machucar.
Catiço matou
um. Ele viu o corpo caindo na viela. Era a primeira vez. Sentiu a arma
quente nas mãos. O coração disparou, as pernas bambolearam.
O colega bateu em seu ombro, sorriu de canto. Correram de lá e
jogaram a arma no lixão. Catiço jantou com os avós.
"Come mais meu filho, tá sem fome?", ele não respondeu.
"Ei, em que
mundo você vive?", disse a mãe. "No mundo das completudes",
disse a filha sem olhar e continuou a escrever. Era melhor e mais vivo
assim.
|