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Ela nasceu em uma
tarde de terça-feira, um feriado nacional. Não lembra-se
de nada, como de nada lembra-se ninguém, sobre o momentoe m que
nasceu. Dizem que vemos uma luz. É claro. Saímos do escuro
para o claro, de maneira tão abrupta, que deve assustar. E não
foi à toa que chorou, meio baixinho, mas chorou. Todos choramos
quando nascemos, e não é por acaso. Das trevas faz-se a
luz. Engraçado é que dizem que quando morremos vemos também
uma luz. Ela gostava de pensar que quando morremos voltamos ao útero.
Mais ou menos isso. É como se voltássemos ao melhor lugar
do mundo, aquele lugar do qual jamais gostaríamos de ter saído.
Sua mãe conta
que estranhou quando ouviu seu choro baixo, "Muito baixo", disse
que pensou. E achou-a muito roxinha quando a viu pela primeira vez. Quis
saber se ela estava bem, o médico disse que sim. Ela achava super
engraçado ouvir sua mãe dizendo que queria senti-la, claro,
afinal, ela havia morado na barriga dela por nove meses, mas, quando sentiu
seu rostinho pequeno tocando-a, sentiu um pouco de nojo, só um
pouco, porque seu rostinho estava todo gosmento, com aquela gosma de nenê
que recém saiu da barriga da mãe. Ela gostava de saber que
a mãe era sincera. E sabia que não ia ser um nojo de gosma
de bebê que as afastaria na vida, não.
Adorava ouvir essa
história, a história do dia do nascimento dela. A melhor
parte era ouvir o que aconteceu antes. Sua mãe nunca disse que
a sensação era "indescritível", como costumam
dizer a maioria das mulheres que passaram pela experiência de dar
à luz. A mãe descrevia tudo como ninguém.
Primeiro tudo calmo.
A barriga estava ali, e logo iria desaparacer. Aquela barriga grande,
enorme, imensa. Aquela barriga que a mãe não suportava mais
carregar. Ansiosa, queria ver logo o rostinho dela. E ela queria mesmo
sair. E vai ver que a mãe sabia disso. Então a mãe
dizia que se sentia como um balão surpresa. "Balão
surpresa?", ela perguntou na primeira vez que ouviu. É. E
então a mãe explicava que quando era pequena, nas festinhas
de aniversário havia um negócio chamado balão surpresa.
Os adultos enchiam um enorme balão com um monte de coisas: balas,
doces, pequenos brinquedos. Depois, enchiam de ar, como um balão
normal, e o penduravam no teto do lugar onde estava sendo a festinha.
Em um determinado momento da festa, a criançada era avisada que
estava na hora de estourar o balão. Iam todos para debaixo do balão,
esperando ansiosamente o momento do balão ser estourado para que
caíssem todas as surpresinhas para as crianças se matarem
de gritar e de pular e às vezes de brigar para pegá-las.
Na verdade aquilo não era bem uma surpresa, porque as crianças
já sabiam mais ou menos o que iria sair dali. Mas não exatamente.
O balão precisava ser estourado para que as crianças descobrissem
e vissem de perto quais doces, balas e brinquedos estariam no balão.
E então vinha a melhor parte da história: sua mãe
amava o balão surpresa, mas morria de medo daquele momento. Fica
curiosíssima para saber o que tinha lá dentro, mas morria
de medo dos momentos que antecediam o estouro do balão, bem como
o momento do estouro. Odiava aquela criançada pulando umas em cima
das outras, se matando pra pegar umas balas e brinquedinhos. Achava tudo
meio louco. Seu coração batia forte, apertado. Muitas vezes,
a mãe de sua mãe corria junto com as crianças no
momento do balão para ajudar a filha, porque sabia que a menina
ficava apavorada e acabava não pegando nada. E minutos após
o estouro do balão, sentia um alívio tão grande que
muitas vezes queria chorar.
Ela levou muitos
anos para entender por que sua mãe sentia-se como um balão
surpresa. Um dia, entendeu. A mãe enfrentou o balão de novo
no dia que ela nasceu. Morreu de medo, achou que o coração
iria sair-lhe pela boca, mas assim que viu a surpresa do balão,
tudo passou. E chorou. Um choro de alívio, felicidade, satisfação.
Um choro da mais pura qualidade. Choro de mãe.
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