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Pronto. Começou.
Ela já começou a nadar em mim. Já está aqui
há quase cinco meses, e eu ainda não a sentia. Agora, sei
que está aqui, tenho a confirmação bem palpável.
Assusta-me a responsabilidade
enorme que tenho agora sobre meu corpo. Devo cuidar bem dele, cuidar mais
do que nunca. Qualquer esforço a mais, qualquer exagero podem significar
algum dano a ela. E a mim também, claro. A nós.
Os movimentos de
um bebê no útero são bem assim: parece que tem algo
nadando em você. Como é a sensação de algo
nadando em você? É assim, é isso que estou sentindo.
Tem gente que diz que parece uma borboleta voando na sua barriga. Sim,
pode ser isso também. Mas borboleta não vive na água.
Um bebê vive, e é por isso que penso neles nadando.
Sou seu mar infinito.
Vai ver ela pensa que o mundo é mesmo só isso. Mas nem tem
nada de infinito, porque é tão apertadinho... Bom, cada
um tem a sua idéia sobre finitude. Cada um estabelece seus conceitos
sobre finito baseando-se nos limites que tem. Os dela ainda são
bem restritos. Bem, mas nem tanto... Há as vozes. As vozes que
ela ouve lá de dentro. As vozes aqui de fora. Um exterior que ela
ainda não conhece, mas aos poucos já percebe que existe.
Já está ampliando limites... Ah! E existe a luz: a luz que
ela vê e sente. A luz aqui de fora, para ela, é apenas luminosidade.
Orgulha-me mantê-la.
Aquecê-la. Provê-la. Sou a única responsável.
Preciso estar bem para que ela esteja bem. Preciso estar calma para que
ela esteja calma. Preciso estar bem alimentada para que ela não
tenha fome. Preciso descansar para que ela descanse. Preciso ser feliz
para que ela absorva toda a minha alegria.
Nada, Angelina.
Nada, minha filha, minha pequena, minha mais nova invenção.
Angelina menina. Menina. Angelina.
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