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por Melissa de Menezes

A doença, como a morte, faz parte dos prazeres do homem.

Novalis

Hermann fechou a janela sem pensar. Agora, dentro daquele cubículo suado, hermético, na companhia apenas de moscas de luz, ele pensa: Para que fechar a janela, afinal?

Uma trêmula corrente de sangue escorre rápido em seu rosto enquanto ele olha para cima e para baixo e para lugar nenhum, meio desesperado meio cansado meio atordoado... E começa a andar de um lado a outro tanto quanto é possível, tentando fingir que não está ali, tentando lembrar por que está ali... tentando esquecer.

Hermann senta, ofegante. Contempla o foco amarelo de luz que incide sobre sua mão ensangüentada, deixando o vermelho-amarelo, azul? Hermann não está realmente acordado. O relógio não está realmente parado. E esta porta não parece totalmente fechada. O sangue quente escorrendo do lado do ouvido incomoda como uma língua. Ele passa a mão nos olhos tentando deixar a situação menos real. Se estivesse somente trancado naquele elevador sujo e escuro não seria nada, o problema era aquele barulho repetido na cabeça. Aquele mesmo som surdo, oco, repetindo-se como um martelo. A camisa líquida gruda na parede do elevador e escorre... A espera é sempre a pior parte. Põe a mão na cabeça, procurando a origem daquilo tudo e acaba achando um buraco. Um buraco negro com sangue coagulado. Um buraco vazio. Não sente dor. Não a dor esperada. Nem o alívio esperado, tantas vezes dissecado, daquele dia em que não sentiria mais a presença dela em nenhuma parte do mundo. No mundo dele. Mas tudo caiu no vazio e isso era esperado.

Então no eco silencioso dentro do elevador, a repetir-se o som do corpo estourando no chão, da janela fechando-se, do elevador estagnando entre um andar e outro, do bater de asas, da própria mão passando pelos cabelos.

Sons distantes de engrenagens o trazem ao chão, a si. Mas as portas do elevador voltam a fechar e Hermann volta a subir. Volta tudo. Hermann não está realmente acordado. É ele que entra pela porta em direção ao quarto conhecido, já decifrado, abre (bem) a janela, os olhos e os ouvidos para repetir com seu próprio corpo exatamente o movimento que deu ao corpo dela.