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Hermann fechou a
janela sem pensar. Agora, dentro daquele cubículo suado, hermético,
na companhia apenas de moscas de luz, ele pensa: Para que fechar a janela,
afinal?
Uma trêmula
corrente de sangue escorre rápido em seu rosto enquanto ele olha
para cima e para baixo e para lugar nenhum, meio desesperado meio cansado
meio atordoado... E começa a andar de um lado a outro tanto quanto
é possível, tentando fingir que não está ali,
tentando lembrar por que está ali... tentando esquecer.
Hermann senta, ofegante.
Contempla o foco amarelo de luz que incide sobre sua mão ensangüentada,
deixando o vermelho-amarelo, azul? Hermann não está realmente
acordado. O relógio não está realmente parado. E
esta porta não parece totalmente fechada. O sangue quente escorrendo
do lado do ouvido incomoda como uma língua. Ele passa a mão
nos olhos tentando deixar a situação menos real. Se estivesse
somente trancado naquele elevador sujo e escuro não seria nada,
o problema era aquele barulho repetido na cabeça. Aquele mesmo
som surdo, oco, repetindo-se como um martelo. A camisa líquida
gruda na parede do elevador e escorre... A espera é sempre a pior
parte. Põe a mão na cabeça, procurando a origem daquilo
tudo e acaba achando um buraco. Um buraco negro com sangue coagulado.
Um buraco vazio. Não sente dor. Não a dor esperada. Nem
o alívio esperado, tantas vezes dissecado, daquele dia em que não
sentiria mais a presença dela em nenhuma parte do mundo. No mundo
dele. Mas tudo caiu no vazio e isso era esperado.
Então no eco
silencioso dentro do elevador, a repetir-se o som do corpo estourando
no chão, da janela fechando-se, do elevador estagnando entre um
andar e outro, do bater de asas, da própria mão passando
pelos cabelos.
Sons distantes de
engrenagens o trazem ao chão, a si. Mas as portas do elevador voltam
a fechar e Hermann volta a subir. Volta tudo. Hermann não está
realmente acordado. É ele que entra pela porta em direção
ao quarto conhecido, já decifrado, abre (bem) a janela, os olhos
e os ouvidos para repetir com seu próprio corpo exatamente o movimento
que deu ao corpo dela.
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