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Solidão,
traição, feminilidade e traumas de infância. Esses
são alguns dos temas mais explorados nas letras da cantora e compositora
americana Dory Previn. Com muita sinceridade e ironia, ela construiu uma
coleção de belos álbuns de country e folk em cima
de uma vida cheia de complicações.
Dory Previn começou
a carreira como Dory Langdon. Entrou no showbusiness escrevendo letras
para trilhas de cinema no final dos anos 50, época em que conheceu
seu parceiro musical André Previn, com quem casou depois de um
ano. Junto com ele e o guitarrista de bebop e blues Kenny Burrell, ela
compôs seu primeiro disco solo em 1958, intitulado "The Leprechauns
Are Upon Me", uma coleção de jazzinhos bacanas com
letras bem sacadas. Um bom álbum, mas ingênuo comparado ao
que viria depois. Durante os anos 60, o casal Previn escreveu várias
canções para o cinema, sendo nomeados para o Oscar diversas
vezes. Mas a melhor parte de sua carreira ainda estava por começar.

Não há
nada melhor do que um pé na bunda para escrever uma boa canção
folk. E foi o que aconteceu com Dory (agora) Previn dez anos depois de
seu casamento. Seu marido conheceu uma jovem atriz chamada Mia Farrow
que passou a freqüentar o lar dos Previn e acabou por levar o marido
como souvenir. O suficiente para causar um divórcio e uma nova
guinada na carreira da cantora.
Em 1970, Dory lançava
um álbum recheado de canções folk com letras tão
sinceras que, não fosse a aguçada ironia da compositora,
seriam simplesmente trágicas. Cada faixa do disco "On My Way
To Where" é um verdadeiro conto, cheio de acontecimentos e
surpresas em suas pequeninas tramas de, em média, 3 minutos. Os
arranjos são simples e belos, mas é mesmo em suas letras
que Dory Previn encanta e prende a nossa atenção.

O disco começa
com "Scared To Be Alone", uma delicada balada onde a compositora
questiona a teimosia dos humanos em perceber o valor das pessoas que estão
a sua volta apenas quando elas não estão mais lá.
Em "With My Daddy In The Attic", a cantora dá início
ao que seria uma coleção de músicas sobre o seu conturbado
relacionamento com o pai, um soldado que lutou na Primeira Guerra Mundial
e voltou cheio de traumas e paranóias. Em um de seus devaneios,
ele trancou a família inteira no sótão por meses,
ameaçando qualquer um que se atrevesse a sair com uma arma. Na
canção, ouvimos uma versão bem humorada da história
com desconfortáveis toques de incesto. Em "Esther's First
Communion", a personagem é uma inocente e confusa menina que
cresce em meio a uma família extremamente católica e acaba
caindo na promiscuidade (para aparente deleite da irônica compositora):
"When she
made her first communion
Esther made the perfect union
But she never saw His little face again
Yeh, her mother said dont tease us
So instead of seeing Jesus
She began to see a lot of other men"
Na 8ª faixa,
chega a hora da cantora desabafar sobre a infeliz intrusão de Mia
Farrow em sua vida. Já no título da canção,
ela avisa às mulheres: "Beware of Young Girls".
"She was
my friend
My friend, my friend
She sent us little silver gifts
Oh yes, she did
'Oh what a rare and happy pair'
She inevitably said
As she glanced at my unmade bed
She admired my unmade bed
Beware of young girls
Who come to the door
Wistful and pale
Of twenty and four"
A canção
que fecha o álbum, "Mr. Whisper", fala da passagem da
cantora por uma clínica psicológica onde foi submetida à
terapia de eletrochoque. Sarcástica como sempre, ela nos apresenta
o amigo imaginário Mr. Whisper, que sussura idéias dentro
de sua cabeça. Ao amigo, ela declara: "Id rather
madness / Than this sadness / In my head". No final da música,
várias vozes confundem-se fazendo perguntas, cantando trechos de
outras músicas do disco e encerrando, enfim, com a perturbada questão:
"I was on my way to... where?".
O disco foi apenas
o primeiro de seis envolventes álbuns de estúdio da compositora.
Sempre repleta de boas melodias e belas letras, a discografia de Dory
Previn merece atenção de todos que curtem histórias
interessantes e uma grande dose de humanismo.
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