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Um bilhete para Arthur

 

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por Moisés Westphalen
 

Acordou com vontade de ir ao cinema. Pensou três vezes em matar a família antes. Desistiu.
Pegou uma sessão aleatória. Ficou arrependido. Lembrou da dica de Moisés: Antes Só Do Que Mal Casado, a nova comédia dos irmãos Farrelly. Lembrava bem do texto que o amigo deixara sobre sua mesa, em um ontem cinzento.

Caro Arthur,

Para colorir um pouco seu dia, recomendo uma sessão do filme novo de Peter e Bobby Farrelly. Convide a Júlia e aproveite.

Parou de ler. Suspirou, Júlia o havia deixado, e prosseguiu. Era um bilhete muito longo e pulou alguns trechos, por preguiça.

É um daqueles filmes de rir até chorar. Poucos fazem isso tão bem quanto os dois diretores, certamente dos mais importantes em Hollywood, atualmente. São uma espécie de oásis dentre as comédias norte-americanas.

Não esperava que o amigo escrevesse algo como "oásis dentre-qualquer-coisa" e pensou se, cedo ou tarde, todos não cederiam ao cafona. Prosseguia.

Sua alma gêmea certamente também dará boas risadas. Aliás, ela se parece com uma das personagens, uma mulher que, a princípio, parece apenas encantadora e, em seguida, revela-se pesadelo.

Pesadelo era sua vida. Acordava só e queria matar a família. Daria uma boa comédia, se dirigida pelos irmãos. Ou não, pensava, sabotando sua mente criativa.

Sabe que sempre pode confiar em minhas dicas, afinal, tenho bom gosto.

Moisés era um grande amigo, mas um tremendo de um arrogante.

O duro é lidar com pessoas que não entendem a proposta dos irmãos e tentam logo taxar os filmes como apelativos ou de mau gosto. Não há um personagem que não seja alvo de piada e, são todos retratados com respeito.

Era tanta baboseira que já estava cansando de ler. Era tudo verdade, sim, mas superficial. Agora, não era hora para isso, falar a respeito de cineastas. Júlia não existia mais em sua vida. Júlia, o pesadelo. Antes, um pesadelo elegante e encantador. Agora, um pesadelo em uma noite vazia.

Fico feliz de perceber que vocês estão felizes, enquanto casal. Júlia é mesmo uma mulher perfeita.

Amassou o bilhete e chorou compulsivamente. Precisava contar ao amigo sobre o rompimento, palavras de conforto cairiam bem. Assistiu ao filme recomendado, apenas para agradar ao jovem, e passou em sua casa, agora.

- Arthur?
- Moisés!
- Que surpresa.
- Verdade. Preciso de ajuda.
- Agora estou um tanto ocupado.
- Peraí, Moisés. Sou eu, Arthur! Praticamente um irmão.

Moisés está aflito. Sugeriu um filme para o amigo. Na história, a perfeita alma gêmea vira pesadelo. Tentou fazer uma relação com a esposa de Arthur, classificando-a como alma gêmea e pesadelo, ao mesmo tempo. Queria que o amigo pensasse a respeito. Não seria a alma gêmea uma desequilibrada?

- Tudo bem, posso dar um tempo nos textos. Entra aí.
- Tô mal, cara. A Júlia me deixou.
- Já?
- Dois meses de casório.
- Vamos conversar aqui no lavabo, Arthur.

Moisés está suando frio. Não sabe como explicar a situação do banheiro ao amigo. Júlia está em sua cama, nua, ele não pode vê-la. Um tipo de traição imperdoável e Moisés, eu sou, ele pensa, é um bom amigo. Sem muita opção, ele decide simular a excreção de fezes diante de Arthur.

- Não estou muito bem.
- Eu duvido que volte a ir aos pés, Moisés. Sem a Júlia, nada funciona. Nem o intestino.
- Nem o Lactopurga?
- Muito menos. Hoje caí de boca em anti-depressivos. Nada. Estou péssimo, ainda.

Moisés está fazendo força, mas o plano não dá certo. Trinta minutos antes, estava

- Amor, estou fazendo o número 2!

Agora está vazio por dentro e o plano (de)fecal não resulta. Um bom amigo conta a verdade, pensa. Um bom amigo conta a verdade. Amigo, verdade. Amigo, verdade.

- Arthur. Tenho hemorróidas. Gostaria que me deixasse a sós, não me sinto à vontade, ainda, para me expor de tal forma diante de ti, embora te considere, de verdade, o melhor dos amigos.

Moisés está desolado. Arthur caiu feito patinho. Decide ir até o quarto, agora que o amigo se foi. No caminho, está se convencendo de que apenas está ouvindo seu coração. Se Júlia está fazendo isso e ele também, bem, o casamento com Arthur foi mesmo má idéia.

- Não é isso que eu penso.
- Por que não, Júlia?
- Estou envergonhada, Moisés. Foi um erro. Arthur me ama e eu o amo de volta, como naquela canção.
- Júlia, não seja boba. Vou conversar com o Arthur. Ele vai entender. Arthur nos ama muito.
- Mau amigo, Moisés. Um péssimo amigo.

Júlia caminha, solitária, pelas ruas de Porto Alegre. Sente-se distante do universo farrellyano, embora não esteja pensando nisso. Ela apenas quer rever Arthur, contar a verdade, pedir desculpas e ser feliz. Como em um filme de Nora Ephron. Ela sabe que, no fundo, todo mundo queria que sua vida fosse como uma péssima comédia romântica.