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Ela prometeu contar até sete e, em seguida, virar o corpo na direção oposta – aqui vou eu!
Aos sete anos brincara pela última vez de esconde-esconde e, agora, contaria até sete.
Sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e um... Ela pede que o marido não cante a música, já é infância demais para atormentar.
Aproxima-se do caixa, vestindo uma saia muito curta, que chama a atenção para suas pernas longas e músculos definidos. Fica em silêncio por um, dois, três, quatro, cinco, seis e sete segundos, quando grita aqui vou eu e saca o revólver de sua bolsa de camelô. É o sinal, o marido aproxima-se, vestindo uma meia calça, na cabeça, e os dois exaltadíssimos, urram passa a grana, passa a grana, véia.
Saíram com o dinheiro, entraram no carro e sorriram, felizes, ao trocar um primeiro olhar enquanto ladrões. Eu disse que daria certo, ele falou, beijando os lábios da mulher. Seguimos à risca o enredo do filme.
O filme era um filme qualquer, um desses filmes de roubo qualquer, mas um filme com uma boa idéia, um filme que poderia pagar por um bom plano de saúde para tratar a doença da mulher.
O homem abraça a esposa, que está no volante, você está com os faróis acesos, querida; não, não, é o meu caroço. O homem pede desculpas, tranquilo, afinal, não era sua primeira vez. Semana passada sentiu um calombo em suas costas, durante a cópula, e pediu para espremer a espinha, parece que ele gosta muito disso, de espremer espinhas, mas tudo que ela fez foi derramar algumas lágrimas – nem espinhas posso ter, sou só caroços, ela disse.
Ele passou a semana frustrado, ela possui bolotas pelo corpo todo, ninguém até hoje descobriu o motivo, não é câncer, não é nada, mas sente-se menos mulher. O marido quis dar uma força, quem sabe coloca aqueles chifres na testa, embaixo da pele, assim os outros caroços ficam proporcionais e com sentido. Parece que ela não gostou, mas o certo é que atingiu o olho do homem com a batedeira de aço inox, um modelo muito recente, por sinal, e muito caro – agora preciso de uma nova batedeira.
O roubo, portanto, era tudo, para eles, naquele momento, era a nova batedeira, era a extinção dos calombos, com exceção de um deles, que o casal jamais comentava, aparentemente prazeroso, em certas situações, era também as entradas para o show do Radiohead no Brasil e era, é claro, as passagens, porque eles moram em Porto Alegre.
Aqui é só Deep Purple, o marido enfurecido.
O dinheiro em mãos, o sorriso, a emoção quando ela fechou os olhos e os caroços não existiam mais, apenas um corpo liso e sedutor.
A polícia chegou, deitou o casal no chão, revirou o carro, levou o dinheiro, os prendeu e, enquanto dirigiam-se à delegacia, o marido massageava o caroço no mamilo esquerdo da mulher, cheia de tensão. Foi tudo muito rápido, estamos arrependidos, não foi nossa culpa, foi um filme, isso, foi o filme que nos deu a idéia, antes éramos um casal normal.
Foram liberados, quase sem punição, e o cinema, outra vez, foi condenado. |
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