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Um garoto discute ferozmente com a mãe. Xinga. Vai contra suas atitudes, não as aceita de maneira nenhuma. Ela separou-se do pai do garoto e vive com outro homem. Ele não aceita o “novo pai”. O menino passa, por muito tempo, colocando defeitos na mãe, manifestando seu ódio. Ele quer morar com o pai.
É assim o primeiro plano de Dez, longa do iraniano Abbas Kiarostami. Plano longuíssimo e fixo, por sinal, um close no menino. Jamais enxergamos a mãe. A longa discussão é uma das dez seqüências que formam o filme. É a seqüência de numero dez. Em seguida, a nove, oito, sete... Todo o filme se passa dentro de um carro, um táxi. Uma câmera focaliza o banco do passageiro e outra a bela motorista. Não há o plano e o contra-plano. Ouvimos, na primeira seqüência, a discussão de mãe e filho, mas, nesse caso, mesmo quando ela fala, só vemos o rosto do menino. Em outras circunstâncias, vemos apenas a motorista. É o caso de uma das “caronas”, a prostituta. Sempre ouvimos a mulher, sua estranha risada, mas não a vemos. É preciso que cada um crie a imagem.

O filme trata de algumas histórias de mulheres, no Irã, através de conversas em um táxi. E somente com as duas câmeras, digitais, uma na motorista e outra no carona. A posição da câmera sempre a mesma. Dessa maneira, como que se espiássemos as conversas, envolvemo-nos nos dramas das personagens. A motorista conduz o filho, uma velha muito religiosa, uma prostituta, uma mulher que está na expectativa de se casar, mas não sabe se o noivo vai finalmente aceitar, uma mulher abandonada pelo namorado.
Dez é um filme sobre relacionamentos humanos. Discute as relações humanas através das histórias dos passageiros. É através da relação motorista/passageiro que se põem em discussão as outras histórias. A relação complicada, já citada, da mãe e do filho. A relação dela com a velha, que vai até um templo várias vezes por semana, mais de uma vez por dia, para rezar. A relação com a prostituta, que defende com veemência sua profissão, diz ser uma como outra qualquer.
O filme foi feito sem um roteiro escrito pré-estabelecido. Os atores apenas recebiam informações e indicações do diretor através de um microfone de ouvido. Muita discussão foi gerada em torno do filme e, por causa de seu procedimento de produção, muitos tentaram tirar os méritos do diretor. Mas a obra só existe por causa dele.
A história da mulher que aguarda a decisão do marido, para saber se vai ou não casar, tem sua finalização na penúltima seqüência. A delicadeza poética de Kiarostami fica evidente nesse momento, quando, após ser abandonada pelo marido, a mulher surge de cabelos raspados. Ela chora ao mostrar a cabeça à motorista. Ela libertou-se de sua função de objeto. Libertou-se da sua submissão ao noivo. É um momento bastante especial e de sutileza rara.
Nunca temos certeza se o que vemos é algo puramente ficcional ou se existe algo de documental. Mas isso realmente não importa, ao fim. Kiarostami é um dos mais importantes cineastas em atividade, cada vez mais distante da convencional narrativa cinematográfica, explorando possibilidades. Esse é mais um de seus belos trabalhos e, no fim das contas, uma pequena obra-prima. |
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