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Esta vai ser uma
crônica sobre cinema, mas não sobre filme algum. Basicamente,
poderei citar alguns fatos que, deprimentemente, ocorrem em uma tentativa
de se ver um filme em tela grande - isso, claro, dependendo da sala escolhida.
Pode parece uma grande besteira, um texto sobre isso, uma perda de tempo.
Caro leitor, de fato, é.
Em primeiro lugar,
no verão de Porto Alegre, precisamos vencer o calor. Não
é tarefa fácil. Não há motivação
para qualquer movimento do corpo. Entretanto, existem pessoas sem ar-condicionado
em casa, ou seja, eu. Daí, o cinema é a melhor escolha.
Inclusive, é recomendada uma preparação para bater
os dentes mesmo. Não vou dar nome aos bois, afinal temo que a imensa
repercussão de meus textos suje minha ficha ainda mais e termine
por me envolver em problemas judiciais.
Vencendo o calor,
é preciso vencer o ônibus. Afinal, se não tenho ar-condicionado,
não seria um carro que faria com que me deslocasse. O ônibus,
associado ao calor, como todo "descarrado" sabe, é o
inferno na Terra. Ao morrer vou para o Inferno, graças a Mim, e
será realmente um alívio. Pior não há de ser.
Agora, a parte do ônibus: espera, sol, suor, pessoas, suor, pessoas,
suor, pessoas, suor, suor, gotas. Saindo do ônibus, mesmo que o
tal possua ar refrigerado, será glorioso. Não existe um
ar-condicionado de ônibus que não deixe o clima ainda mais
abafado.
Shopping. Compras,
peruas, patricinhas e namorados, todo um clima bacana. Esqueça,
lá está o bendito ar gelado. Após um dia dentro de
shopping, garanto, a carne sai fresca. Cinema. Melhor, antes, uma passada
no supermercado. Veja bem: uma pessoa que só possui um péssimo
ventilador de teto e anda de ônibus não seria na bombonière
(cada palavra que importam) que faria as compras. Nela, o pacote de pipoca
é dez reais, quem sabe. Um simples bombom pode levar o consumidor
à falência. Basta recorrer ao supermercado. Lá onde
os preços, se não são bons, saem pela metade. Um
pacote da clássica bala Azedinha, em uma bombonière da vida,
custa o preço de dez pães franceses. Antes comer pão
no cinema.
Pão em punho,
ingresso no bolso: bilheteria. É o momento da doce e suave fila.
Essa é aquela onde ficamos antes de pegar a outra, para depois
entrar no freezer. (Freezer é elogio, nesta época do ano.)
Um único porém: a fila pode atrasar uma pessoa, é
sempre interessante garantir uma antecipação em relação
ao horário programado da sessão - especialmente em caso
de Harry Potters da vida. Nesse caso, será necessário aportar
na bilheteria pelo menos uma hora antes do horário marcado, depois
de passado o fim de semana de estréia, é claro.
Após a compra
do ingresso, a fila de número dois. Existe uma sala em Porto Alegre,
nome em sigilo, que comete um grave pecado. Muitas vezes, liberam a sala
em cima da hora. Uma imensa quantidade de pessoas, pouco a pouco, passa
a adentrar o recinto mágico. O pecado reside no fato de que a sessão
inicia pontualmente. Ou seja, um absurdo - quem entra no escuro e ameaça
perder o início da sessão somos nós, os nem sempre
amáveis, espectadores. Em seguida, basta congelar e gozar. E ouvir
toques de celular, barulho de pipoca mastigada, saco de pipoca, plástico
de bala, final de refrigerante sugado por canudo e uma série de
outras preciosidades tão características do cinema.
O fato notável
ocorreu ainda hoje. Após uma rápida fila, fui ao cinema
de manhã, paguei pelos ingressos. Cinemark. Recebi o troco de volta
e, junto dele, um biscoito estranho que está na moda. É
uma bolachinha comprida intitulada Maxi-alguma-coisa; algumas são
de chocolate, outras são chamadas de "bananinha", algumas
de coco ou até mesmo "goiabinha". Trinta e cinco centavos,
no supermercado. Assim que empurrou o dinheiro em minha direção,
disse: Aceita um biscoito?... Concordei com a cabeça antes de ouvir
o final da frase. Adoro brindes. Ela termina a frase: ... como troco?
Então, juntando as duas partes, ela me ofereceu o biscoitinho como
troco. Automaticamente, peguei o dinheiro e os ingressos e o biscoitinho
e, acho que só, fui saindo, até que processei o final da
frase. Uma rede de cinema me dando biscoito como troco? Olhei para o dinheiro:
4 reais (mais biscoito). O tão supracitado biscoito me custou um
real. Eu deveria ter devolvido e pedido o troco em dinheiro, mas não
o fiz. Sou fraco. Outras pessoas compravam ingresso na hora, desisti.
Não é uma situação aceitável.
Deplorável,
é a palavra. Geralmente, quando devem um centavo, as empresas (de
1,99) nos dão uma bala, em troca. Mas não um biscoito de
trinta e cinco centavos valendo um real. Não devolvi, é
verdade. Fui burro. Mas o final da história será outro:
- Um ingresso, por
favor.
- 5 reais, quarta-feira é preço superpromocional, querido.
Estendo cinco biscoitos.
- Senhor?
- Pode me chamar de moço.
- O que são esses biscoitinhos?
- Meu ingresso, não está na cara?
E, então,
será feita justiça.
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