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A crônica sobre filme algum

 

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por Moisés Westphalen
 

Esta vai ser uma crônica sobre cinema, mas não sobre filme algum. Basicamente, poderei citar alguns fatos que, deprimentemente, ocorrem em uma tentativa de se ver um filme em tela grande - isso, claro, dependendo da sala escolhida. Pode parece uma grande besteira, um texto sobre isso, uma perda de tempo. Caro leitor, de fato, é.

Em primeiro lugar, no verão de Porto Alegre, precisamos vencer o calor. Não é tarefa fácil. Não há motivação para qualquer movimento do corpo. Entretanto, existem pessoas sem ar-condicionado em casa, ou seja, eu. Daí, o cinema é a melhor escolha. Inclusive, é recomendada uma preparação para bater os dentes mesmo. Não vou dar nome aos bois, afinal temo que a imensa repercussão de meus textos suje minha ficha ainda mais e termine por me envolver em problemas judiciais.

Vencendo o calor, é preciso vencer o ônibus. Afinal, se não tenho ar-condicionado, não seria um carro que faria com que me deslocasse. O ônibus, associado ao calor, como todo "descarrado" sabe, é o inferno na Terra. Ao morrer vou para o Inferno, graças a Mim, e será realmente um alívio. Pior não há de ser. Agora, a parte do ônibus: espera, sol, suor, pessoas, suor, pessoas, suor, pessoas, suor, suor, gotas. Saindo do ônibus, mesmo que o tal possua ar refrigerado, será glorioso. Não existe um ar-condicionado de ônibus que não deixe o clima ainda mais abafado.

Shopping. Compras, peruas, patricinhas e namorados, todo um clima bacana. Esqueça, lá está o bendito ar gelado. Após um dia dentro de shopping, garanto, a carne sai fresca. Cinema. Melhor, antes, uma passada no supermercado. Veja bem: uma pessoa que só possui um péssimo ventilador de teto e anda de ônibus não seria na bombonière (cada palavra que importam) que faria as compras. Nela, o pacote de pipoca é dez reais, quem sabe. Um simples bombom pode levar o consumidor à falência. Basta recorrer ao supermercado. Lá onde os preços, se não são bons, saem pela metade. Um pacote da clássica bala Azedinha, em uma bombonière da vida, custa o preço de dez pães franceses. Antes comer pão no cinema.

Pão em punho, ingresso no bolso: bilheteria. É o momento da doce e suave fila. Essa é aquela onde ficamos antes de pegar a outra, para depois entrar no freezer. (Freezer é elogio, nesta época do ano.) Um único porém: a fila pode atrasar uma pessoa, é sempre interessante garantir uma antecipação em relação ao horário programado da sessão - especialmente em caso de Harry Potters da vida. Nesse caso, será necessário aportar na bilheteria pelo menos uma hora antes do horário marcado, depois de passado o fim de semana de estréia, é claro.

Após a compra do ingresso, a fila de número dois. Existe uma sala em Porto Alegre, nome em sigilo, que comete um grave pecado. Muitas vezes, liberam a sala em cima da hora. Uma imensa quantidade de pessoas, pouco a pouco, passa a adentrar o recinto mágico. O pecado reside no fato de que a sessão inicia pontualmente. Ou seja, um absurdo - quem entra no escuro e ameaça perder o início da sessão somos nós, os nem sempre amáveis, espectadores. Em seguida, basta congelar e gozar. E ouvir toques de celular, barulho de pipoca mastigada, saco de pipoca, plástico de bala, final de refrigerante sugado por canudo e uma série de outras preciosidades tão características do cinema.

O fato notável ocorreu ainda hoje. Após uma rápida fila, fui ao cinema de manhã, paguei pelos ingressos. Cinemark. Recebi o troco de volta e, junto dele, um biscoito estranho que está na moda. É uma bolachinha comprida intitulada Maxi-alguma-coisa; algumas são de chocolate, outras são chamadas de "bananinha", algumas de coco ou até mesmo "goiabinha". Trinta e cinco centavos, no supermercado. Assim que empurrou o dinheiro em minha direção, disse: Aceita um biscoito?... Concordei com a cabeça antes de ouvir o final da frase. Adoro brindes. Ela termina a frase: ... como troco? Então, juntando as duas partes, ela me ofereceu o biscoitinho como troco. Automaticamente, peguei o dinheiro e os ingressos e o biscoitinho e, acho que só, fui saindo, até que processei o final da frase. Uma rede de cinema me dando biscoito como troco? Olhei para o dinheiro: 4 reais (mais biscoito). O tão supracitado biscoito me custou um real. Eu deveria ter devolvido e pedido o troco em dinheiro, mas não o fiz. Sou fraco. Outras pessoas compravam ingresso na hora, desisti. Não é uma situação aceitável.

Deplorável, é a palavra. Geralmente, quando devem um centavo, as empresas (de 1,99) nos dão uma bala, em troca. Mas não um biscoito de trinta e cinco centavos valendo um real. Não devolvi, é verdade. Fui burro. Mas o final da história será outro:

- Um ingresso, por favor.
- 5 reais, quarta-feira é preço superpromocional, querido.
Estendo cinco biscoitos.
- Senhor?
- Pode me chamar de moço.
- O que são esses biscoitinhos?
- Meu ingresso, não está na cara?

E, então, será feita justiça.