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por Moisés Westphalen
 

Se ele acordou cansado é problema dele e eu não esperei muito tempo, apenas o suficiente para que limpasse a remela dos olhos ainda cansados, mas mais tempo do que gostaria e não hesitei em afirmar que os bons homens cedo madrugam, ao que ele respondeu você é um mentiroso, seu gordo de uma figa, aí foram tantos os xingamentos pesados que quase não dormi, ou alguém entende por que gordo precisa ser ofensa, afinal, se gordo ofende isso significa, imediatamente, que ser negro também ofende e não, não é uma tentativa racista, mas gordos, brancos, negros, magros e todos os tipos de pessoas poderiam ser enquadradas, eu poderia dizer seu ridículo, como você é normal, com esse peso todo equilibrado pelo corpo, mas daí, confesso, seria mentira, porque eu jamais utilizo a palavra você, tu é muito melhor, não você, leitor, mas tu, apenas o tu é melhor; não, claro, se tu for meu amigo atrasado, que até agora apenas limpou os olhos e só, sequer foi capaz de calçar os tênis, já os coloquei, imbecil, ele disse, assim nessa mistura de informalidade com formalidade, todo mundo sabe que ninguém diz os coloquei, os coloquei é, isso sim, ridículo, eu já coloquei e pronto, até contei esse pensamento para ele, mas fui logo interrompido, ah, colocou viadinho, às vezes a mente humana assombra, eu pensei, mas não disse, não dessa vez porque respeitei seu cansaço, visualizei a noite anterior, quando havíamos assistido a um filme russo muito impressionante chamado Brancos e Vermelhos, que o Miklós Jancsó dirigiu em 1967, já faz um tempo, não é Brancos e Vermelhos, ele me corrigiu, ainda que sonolento, é Vermelhos e Brancos e nada me incomoda mais do que uma correção, eu não costumo errar e, aliás, eu jamais erro, apenas me engano, e não entendo como isso as pessoas ainda não absorveram, absorver eu absorvi foi esse filme chato e tu nem me deixou dormir, merda, não deixei mesmo, não deixei mesmo porque tu precisa variar teu repertório, não dá pra ficar bitolado, não dá pra ser só terror, não dá pra só ver filme de 2008 e 2009, não dá pra esquecer do passado, ainda mais de um passado tão próximo, foi por isso que fiz ele assistir ao filme inteiro e, se percebia seus olhos fechando, metia-lhe a mão na cara, com educação, é preciso que assista até o final, ou dá próxima vez não veremos o filme da Britney, é, ele queria ver o filme da Britney, esse deve dar sono, mas experiências antropológicas são importantes e verei com prazer, tu entende?, entende que é uma troca e que para que o filme dela seja visto é preciso passar por Vermelhos e Brancos, é uma transição necessária, não vê?, mas ele não via, não mesmo, eu entendo que queira dormir, mas dormir em um filme tão bem dirigido, dormir com tantos longos plano-seqüência espetaculares, porque tu sabe, é raro um filme cheio de planos desse tipo dar certo, não é todo mundo que consegue, eu falei pra ele, falei sim, eu disse que era impressionante como os planos realmente não pareciam precisar de corte, cada movimento reenquadrava a cena de um jeito impressionante e muito eficiente e um uso assim, genial, do plano-seqüência merece ser celebrado, ou, pelo menos, visto, ele sabe, sim, ele sabe que geralmente o plano-seqüência não se justifica, eu já mostrei pra ele, claro, temos mestres que fazem um ótimo uso, mas é difícil que pareça fundamental ou, pelo menos, plenamente justificado, o normal é fazer pelo estilo, eu disse pra ele, é fazer porque é legal e todo mundo sabe que legal não basta, é preciso precisar, é preciso precisar do plano-seqüência então como dormir em um filme assim, tão bem filmado, como?, dormindo!, ele só disse assim, dormindo e deitou de novo, ficou lá, deitado, aproveitando a cama e desistiu de sair comigo, mais uma vez eu consegui incomodar além da conta, mas eu só pensei, eu não disse isso, não podia ceder, então eu só olhei para ele, bem forte, e disse como dormir em um uso estupendo do plano-seqüência?, como dormir num uso maravilhoso, solar, contente, feliz, francamente caloroso e especial, porque tu sabe: sim, tu sabe – geralmente, o plano-seqüência é puro exibicionismo.