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Conto de verão

 

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por Moisés Westphalen
 

Estou na praia. Obviamente, aqui não há cinema. É um tanto triste mas, após diversas tentativas, as salas não vingaram. Pior ainda que, por causa de um imprevisto, estou trabalhando até o próximo final de semana. Não tenho tempo para filmes.

Um amigo de um amigo de meu tio trabalha em um quiosque à beira mar. A idéia de praia soa romântica para alguns, mas não para mim. Ainda mais, preparando drinks para setecentas pessoas a cada dia. Esse amigo do amigo do meu tio possui apenas um liquidificador em seu arrojado quiosque. Ou seja, pior para mim. Preciso atender à demanda dos clientes e, ao mesmo tempo, lavar o copo do aparelho elétrico antigo.

Ainda hoje, me cortei. Ouvi uma voz que disse:

- Um suco de abacaxi, no capricho.

Sequer olhei para o rosto, mas pude reparar que se tratava de uma mulher. Preparei o suco e, ao entregá-lo, opa, era Renata Boldrini. Para quem não a conhece, ela apresentou o programa Cineview, durante muitos anos, no Telecine. Hoje em dia está com um programa de cinema em uma televisão virtual, vejam a decadência. Mas eu sempre quis casar com Renata e vê-la, assim, em minha frente, me emocionou por demais.

- Renata, é um prazer ser teu servo.

Ela sorriu, balançou os cabelos ao vento e deu um leve tapa camarada em minhas costas suadas.

- Não fale assim, meu amigo.

Eu fiquei mudo.

- Te olhando andar pela rua, eu jamais diria que você parece com alguém que trabalha em um quiosque.

Agradeci.

- Afinal, você é muito branco, menino!

Ela falava de forma serelepe.

Agradeci novamente.

- Desculpe, estou nervoso. Nem sei se os mais brancos te agradam.
- Não tenho preconceitos - ela disse, muito simpática.

Comecei a lavar, rapidamente, o copo do liquidificador.

- Como está o movimento, hoje?
- Fraco... - disse eu, evidenciando que até mesmo podíamos conversar. Em um dia normal seria impossível.
- É mais calmo, relax. Eu daria tudo para trabalhar em um quiosque.
- Não, mas eu não trabalho aqui, estou ajudando um amigo de um amigo de meu tio.

Ela sorriu e não acreditou, estou certo, mas não insisti.

- Renata, é verdade que tu gostaste de Babel? - conjuguei na segunda pessoa, tentando soar elegante.
- Adorei.
- Poxa, que decepção. Não esperava isso de ti.

Renata perdeu o sorriso no rosto.

- Achei um tanto fraco. Sabe, até gostei um pouco da parte da menina do Japão e tal, mas, de resto...
- É uma pena, achei um filme cheio de vida. Lindo.
- Renata, não me decepcione, garota! O roteiro é esquemático demais. Não é ruim como Crash, mas também não é bom. Os personagens não parecem existir, eles apenas estão à serviço da pretensão do diretor, bastante estereotipados, às vezes.
- Chega, querido. Assim nossa conversa irá por água abaixo. Não vou mais lhe convidar para sair.
- Não diga isso, Rê. Podemos sair, sim. E discutir Babel melhor. Infelizmente, assisti há certo tempo, mas ainda consigo lembrar de uma coisa ou outra. Lembra daquela parte péssima em que o Brad Pitt tenta pagar o marroquino pela ajuda e ele não aceita, mostrando que o caráter do pessoal de lá é super bacana?
- Lindo.
- Não podia ser pior, Renata.

Sem pensar, joguei o copo do liquidificador em seu rosto.

- Quero o desquite - ela disse.
- Renata, nosso amor é maior.

De repente, estávamos dentro de um elevador, roupas de inverno.

- Eu não quero nada com você, Moisés. Sai da minha vida!
- Que melodrama barato, Renata. Eu sempre te achei chata.

Menti e sofri com o fato, mas tudo de forma muito contida, ela não percebeu, em momento algum.

- Você é um fraco, Moisés. Sequer cuida de nossa filha. É um pai negligente, de quinta categoria!

Dei um tabefe em Renata. Sem julgamentos morais, por favor. Ela retrucou. Retirou um enorme canivete de sua bolsa e furou meu olho. Assustado, gritei.

- Renaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaata!

Acordei. Um cliente besuntado em óleo pediu que lhe servisse uma caipirinha. Após prepará-la, estendi o copo, muito feliz.

- Então está correndo tudo muito bem, Moisés?
- Tudo ótimo, seu Geraldo.
- É alguma namorada? Conseguiu a moça dos sonhos?

Não consegui deixar de sorrir. Um sorriso largo, enorme.

- Solteiro, Geraldo. Solteiro.