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Estou na praia.
Obviamente, aqui não há cinema. É um tanto triste
mas, após diversas tentativas, as salas não vingaram. Pior
ainda que, por causa de um imprevisto, estou trabalhando até o
próximo final de semana. Não tenho tempo para filmes.
Um amigo de um amigo
de meu tio trabalha em um quiosque à beira mar. A idéia
de praia soa romântica para alguns, mas não para mim. Ainda
mais, preparando drinks para setecentas pessoas a cada dia. Esse amigo
do amigo do meu tio possui apenas um liquidificador em seu arrojado quiosque.
Ou seja, pior para mim. Preciso atender à demanda dos clientes
e, ao mesmo tempo, lavar o copo do aparelho elétrico antigo.
Ainda hoje, me cortei.
Ouvi uma voz que disse:
- Um suco de abacaxi,
no capricho.
Sequer olhei para
o rosto, mas pude reparar que se tratava de uma mulher. Preparei o suco
e, ao entregá-lo, opa, era Renata Boldrini. Para quem não
a conhece, ela apresentou o programa Cineview, durante muitos anos, no
Telecine. Hoje em dia está com um programa de cinema em uma televisão
virtual, vejam a decadência. Mas eu sempre quis casar com Renata
e vê-la, assim, em minha frente, me emocionou por demais.
- Renata, é
um prazer ser teu servo.
Ela sorriu, balançou
os cabelos ao vento e deu um leve tapa camarada em minhas costas suadas.
- Não fale
assim, meu amigo.
Eu fiquei mudo.
- Te olhando andar
pela rua, eu jamais diria que você parece com alguém que
trabalha em um quiosque.
Agradeci.
- Afinal, você
é muito branco, menino!
Ela falava de forma
serelepe.
Agradeci novamente.
- Desculpe, estou
nervoso. Nem sei se os mais brancos te agradam.
- Não tenho preconceitos - ela disse, muito simpática.
Comecei a lavar,
rapidamente, o copo do liquidificador.
- Como está
o movimento, hoje?
- Fraco... - disse eu, evidenciando que até mesmo podíamos
conversar. Em um dia normal seria impossível.
- É mais calmo, relax. Eu daria tudo para trabalhar em um quiosque.
- Não, mas eu não trabalho aqui, estou ajudando um amigo
de um amigo de meu tio.
Ela sorriu e não
acreditou, estou certo, mas não insisti.
- Renata, é
verdade que tu gostaste de Babel? - conjuguei na segunda pessoa, tentando
soar elegante.
- Adorei.
- Poxa, que decepção. Não esperava isso de ti.
Renata perdeu o sorriso
no rosto.

- Achei um tanto
fraco. Sabe, até gostei um pouco da parte da menina do Japão
e tal, mas, de resto...
- É uma pena, achei um filme cheio de vida. Lindo.
- Renata, não me decepcione, garota! O roteiro é esquemático
demais. Não é ruim como Crash, mas também não
é bom. Os personagens não parecem existir, eles apenas estão
à serviço da pretensão do diretor, bastante estereotipados,
às vezes.
- Chega, querido. Assim nossa conversa irá por água abaixo.
Não vou mais lhe convidar para sair.
- Não diga isso, Rê. Podemos sair, sim. E discutir Babel
melhor. Infelizmente, assisti há certo tempo, mas ainda consigo
lembrar de uma coisa ou outra. Lembra daquela parte péssima em
que o Brad Pitt tenta pagar o marroquino pela ajuda e ele não aceita,
mostrando que o caráter do pessoal de lá é super
bacana?
- Lindo.
- Não podia ser pior, Renata.
Sem pensar, joguei
o copo do liquidificador em seu rosto.
- Quero o desquite
- ela disse.
- Renata, nosso amor é maior.
De repente, estávamos
dentro de um elevador, roupas de inverno.
- Eu não quero
nada com você, Moisés. Sai da minha vida!
- Que melodrama barato, Renata. Eu sempre te achei chata.
Menti e sofri com
o fato, mas tudo de forma muito contida, ela não percebeu, em momento
algum.
- Você é
um fraco, Moisés. Sequer cuida de nossa filha. É um pai
negligente, de quinta categoria!
Dei um tabefe em
Renata. Sem julgamentos morais, por favor. Ela retrucou. Retirou um enorme
canivete de sua bolsa e furou meu olho. Assustado, gritei.
- Renaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaata!
Acordei. Um cliente
besuntado em óleo pediu que lhe servisse uma caipirinha. Após
prepará-la, estendi o copo, muito feliz.
- Então está
correndo tudo muito bem, Moisés?
- Tudo ótimo, seu Geraldo.
- É alguma namorada? Conseguiu a moça dos sonhos?
Não consegui
deixar de sorrir. Um sorriso largo, enorme.
- Solteiro, Geraldo.
Solteiro.
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