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Eu não escrevo. Eu não sou escritora.

Quando criança eu gostava dos livros por causa das imagens. Formas coloridas que ilustravam toda a fantasia contada pela pessoa que lia as histórias para mim. Eu nem acreditava que tudo aquilo estava escrito palavra por palavra naquele texto rabugento.

Depois cresci, e começou a obrigação de se ler e escrever. Os livros maçantes eram apenas castigos prévios para as temíveis provas. Eu lia rezando para chegar ao fim dos capítulos e suspirava aliviada quando virava a última página.

Eis que eu quis virar atriz. Todo mundo quis.
A leitura finalmente tomou corpo em mim, mas não pelo poder de comunicação em si, mas porque eu as digeria e expurgava em forma de corpo e voz. Pelo menos achava isso.

Um dia tropecei em Rimbaud e me rendi. Sem figuras, sem provas, sem atos. Apenas palavras e sentimentos. O poder puro de letra após letra decodificando mundos inalcançáveis.

Quis ser Rimbaud. Quis ser Wilde, Nin, Beauvoir. Mas cada palavra me custava suor frio correndo pela espinha, e cada vez me via mais longe do objetivo. Desisti.

Hoje eu não escrevo, eu falo. Falo com os dedos tudo o que penso e o que gosto. Cheio de opiniões, vícios, erros, sotaques, mentiras. Nesse texto mesmo eu posso estar mentindo. Mas ninguém pode reclamar, porque eu não sou escritora.

 

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