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Essa semana não
foi de cinema e, sim, de muito teatro. Estou em Curitiba desde sábado
passado no Festival de Teatro de Curitiba. Sei que é muito mais
difícil falar de teatro do que de cinema, já que a esmagadora
maioria das montagens teatrais enfrenta uma dificuldade imensa no Brasil
de hoje de cruzar fronteiras. Falta de público, dificuldade de
patrocínio, limite de verba no orçamento das produções,
tudo isso torna mais remota a possibilidade de alguém assistir
peças que não são da sua cidade em sua própria
cidade. Há exceções, é claro. E o Festival
tem o grande mérito de reunir montagens dos quatro cantos do país.
Aproveito o nevoeiro
do aeroporto aqui de Curitiba (de acordo com o garçom do café:
"- é doutor, o campo, para variar, está fechado!")
para comentar duas peças muito interessantes que tive a oportunidade
de assistir por aqui. As duas estavam no "Fringe" (a mostra
paralela do Festival). Engraçado! Parece que cada vez mais gosto
mesmo é das paralelas!
As duas produções
que queria comentar são do Rio. A primeira tem um título
ótimo: "A sobrancelha é o bigode do olho". É
uma adaptação dos textos do jornalista e humorista Barão
de Itararé, nascido Apparício Torelly. Gaúcho de
Rio Grande (aliás, o leitor desse site, que também tem berço
no Rio Grande do Sul, me permita dizer que eu adoro Rio Grande! Acho a
cidade linda! Não me perguntem o porquê, mas é uma
das minhas cidades prediletas no sul do país).
Bom, voltando ao
Barão!Ele nasceu em 1895, entrou na Faculdade de Medicina de Porto
Alegre, sofreu um derrame precoce, abandonou a faculdade e abraçou
o jornalismo. Mudou-se para o Rio em 1925, vindo a se tornar um dos colunistas
mais lidos do país. Depois da revolução de 30, por
motivos políticos, é preso diversas vezes. Decide se auto-intitular
Duque e, depois, rebaixa-se a Barão de Itararé (uma batalha
que nunca aconteceu!) e mantém forte atividade jornalística,
sempre marcada por muito humor e irreverência. Vale a pena ler um
pouco sobre a vida do Barão, que morre em 1971. E a peça
é uma delícia! Texto inteligente, um grande ator (Marco
Vito) e uma montagem simples e ágil. Vale assistir!
A segunda peça,
também do Rio, é "Os Dragões", uma adaptação
do texto "Os dragões não conhecem o paraíso"
de Caio Fernando Abreu, outro gaúcho, jornalista e escritor, que
nasceu em Santiago em 1948 e morreu em 1996. Caio dispensa maiores apresentações.
Seu "Morangos Mofados", de 1982, é fundamental para entender
o que se passava na cabeça e no coração da geração
dos anos 80. A direção da peça é de Renato
Farias e o monólogo é representando pela atriz carioca Fernanda
Boechat, que está fantástica. Ela dialoga o tempo todo com
a platéia, que funciona como uma espécie de espelho das
suas emoções. O alvo é o coração!
Para terminar, uma
peça que também esteve no Festival de Curitiba (dessa vez
na Mostra Oficial), mas que eu tinha acabado de ver, no Rio, na semana
anterior. Trata-se de uma outra produção carioca, "A
Alma Imoral", um monólogo interpretado pela atriz carioca
Clarice Niskier (melhor atriz no prêmio Shell, do Rio, desse ano).
A montagem é uma adaptação do livro homônimo
do rabino Nilton Bonder. Clarice interage com o público, revelando
alguns caminhos que mostram por onde anda a alma humana nesse novo milênio.
Traição, felicidade, buscas, tudo isso aparece amarrado
na peça. Se essa produção chegar a sua cidade, o
que parece mais viável nesse caso (em função do sucesso
e repercussão que a peça tem tido), não perca. É
para se pensar muito no que o rabino Bonder tem a dizer!
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