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Os doze desafios de Zé

 

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por Jairo Bouer
 

Oitavo desafio: Diga não!

Tentações! Tentações! São tantas as que aparecem em nossa vida, que o homem precisa ser muito, mas muito determinado mesmo, para não se deixar levar pelo calor impiedoso do momento.

"Mulher moderna gosta de ser valorizada, primo" disse o Élber! "Ela gosta de sentir que é única, especial, diferente! Tá certo que elas sabem que ninguém é de ferro, mas muito cuidado para não virar o pescoço para trás nem dar aquela olhada por cima dos ombros dela, quando uma beldade passar na sua frente." Ele tinha razão! Por mais bela e irresistível que seja a musa que passa casualmente ao seu lado, dando a maior sopa, seus dias com a titular podem estar contados, se você vacilar e deixar, ooops, seus olhinhos soltos por aí!

É por isso que Élber, veterinário de longa data, acostumado a lidar com grandes animais e, sem muitos clientes no momento, lógico, veio pedir para Zé uma verba especial para o desenvolvimento de um produto inédito que poderia tornar os dois primos verdadeiros milionários. Um equipamento que ensinaria os homens a se concentrar, de fato, na mulher com quem estão saindo. Lógico que seria uma solução temporária, mas que poderia ajudar na fase aguda, de transição, na quebra da rotina de virar o pescoço ou olhar para os lados. É como lutar contra qualquer tipo de vício. Depois que se quebra o hábito com um artefato ou uma artimanha, o sujeito deve ficar mais apto a lidar com seus problemas.

Élber pensou em dois métodos distintos. Um deles é uma espécie de colar cervical, desses que a gente tem que colocar no pronto socorro quando sofre acidente de carro e pode ter quebrado a coluna. O treco ficaria preso no pescoço e, na festa, seria impossível virar para trás, a não ser que se movesse o corpo todo, o que não seria nada delicado da parte do homem.

O outro (aí contou a experiência veterinária) seria um derivado dos antolhos, parte do bridão que protege os olhos do cavalo e o impede de enxergar lateralmente. Lembra das charretes e carroças do interior? O pobre do bicho só pode olhar para frente, porque fica com aquelas abinhas de couro penduradas ali do lado.

Para Élber, os antolhos poderiam vir pendurados nos óculos, como um artefato fashion. Quem sabe algum estilista moderninho, tipo o Hercovitch, não toparia a parada? Para o colar cervical, a desculpa seria uma tensão muito forte no pescoço por causa das horas na frente do computador, queixa muito comum nos dias de hoje.

Zé chegou a questionar a sanidade mental do primo naquele momento em que ele discorria com a mais absoluta convicção sobre seus métodos pouco ortodoxos (no mínimo) de auto-controle. Mas foi aí que a história de Madalena surgiu em sua memória.

Aquela morena exuberante, que descascava uma laranja com a mesma sensualidade que esfregava os pés macios nas costas de Zé. Com um sorriso eternamente estampado naquela boca carnuda, ela andava para cima e para baixo com aquela faquinha japonesa, acho que da marca Ginsu, que tinha comprado em uma liquidação no canal Shoptime. Sempre a postos para descascar qualquer abacaxi que aparecesse pela frente! A rainha das saladas e das fatias de fruta! Mulher madura, bonita e segura de si!

Tudo ia bem entre os dois até o dia em que Zé e a morena foram à festa de final de ano na casa da Mabel, pintora moderninha e melhor amiga da Madá! Naquela noite Zé estava terrível! Parece que tinha tomado chá de casca de ioimbina, aquela árvore esquisita que dizem que faz até defunto levantar do caixão e correr atrás de mulher! Dizem que perto dela, ovo de codorna, amendoim, catuaba e guaraná parecem brinquedo de criança.

Por baixo, Zé deve ter virado o pescoço umas sete vezes na mesma festa. A cada saia dois dedos mais curta que desfilava pelo salão, seu corpo se contorcia quase que involuntariamente. Espasmos incontroláveis! Era sutil, rápido, um ou dois segundos apenas, mas, tempo suficiente para que Madalena fosse acumulando uma certa dose crescente de orgulho ferido. Olhar para a bunda alheia na frente da sua mulher sempre pega mal, mas na casa da melhor amiga dela, pega pior ainda. Que vacilo, Zé!

Já no final da festa, quando Mabel passou na frente do casal carregando um enorme bolo cremoso e, se debruçou para depositar a travessa no centro da mesa, deixando escapar uma fina faixa rósea da sua calcinha por debaixo da saia, Zé não resistiu e cravou os olhos bem no meio da bunda de Mabel. Dois segundos depois, sentiu uma dor aguda! Madá, com o mesmo sorriso sempre estampado no rosto, tinha enfiado a faquinha Ginsu, com cabo e tudo, na nádega direita de Zé! Mesmo usando jeans grosso e cueca samba-canção, a ponta da fala cutucou de tal forma o glúteo do rapaz, que arrancou sangue das suas carnes e fez com que ele tivesse que se sentar de ladinho por quase uma semana. Pobre Zé!

Madá sumiu no mundo. E com ela, os bolos saborosos de Mabel também! Sabe que, no fundo, talvez o primo desmiolado tivesse alguma razão? Zé foi até sua mesa, assinou um cheque bem gordo e deu a Élber: "50 a 50 nos lucros e, você tem um mês para colocar o produto no mercado, fechado?"