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Os doze desafios de Zé

 

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por Jairo Bouer
 

Décimo desafio: caiu na rede.....

Assistindo TV, Zé aprendeu que Internet é o futuro! Os mais jovens usavam comunidades virtuais para se conhecer, trocar músicas, paquerar, fazer sexo e até engatar namoros.

Segundo o midiático psiquiatra, doutor Bairo Jower, 10% dos casamentos nos EUA aconteciam entre casais que se conheceram online. Para ele, a Internet havia se tornado uma espécie de praça de cidade do interior, onde os casais se encontravam nas solitárias tardes de domingo.

Quem sabe, não? Relacionamentos modernos nascendo no berço das novas tecnologias! Zé entrou em uma madrugada de sábado na sala de bate-papo. Problemas: mais da metade do público era masculino (“Garanhão”, “Boy dotadão”, “Bi quer dar”, “Waldemar”, “Noivo só”, “Cheio de tesão”, “Tesudo”, “25x8”, entre outros). Resolveu tentar mesmo assim.....

Escolheu o nick “Cara Sério”. Mandou mensagens para “Suzana separada”, “Mulher para casar”, “Mãe de família”, “Advogada quer papo” e “Romântica”, mas não obteve nenhuma resposta.

Ousou um pouco (afinal sexo casual pode apenas ser uma defesa contra a possibilidade de um relacionamento mais sério, vai saber né?) e foi até “Gata fogosa”, “Cheia de vontade”, “Louquinha por sexo” e “Tô facinha”, também sem sucesso.

Será que o apelido estava atrapalhando? Trocou “Cara sério” por “Homem bacana” e nada rolou. Resolveu apelar e, na tentativa de personalizar e ser mais objetivo, mandou um “Zé a fim”.

Foi chamado, simultaneamente, por “Gosto de coisa grande” e “Põe até o talo”

“Gosto de coisa grande”
-Oi Zé!

“Zé a fim”
-Beleza Gata?

“Gosto de coisa grande”
-Beleza! É grande o seu?

“Zé a fim”
-Sei lá gata, nunca medi! Você curte cinema?

“Gosto de coisa grande”
-Como assim? Cinema? Pornô? O que quero mesmo saber é se tem mais de 20cm?

“Zé a fim”
-Não quer medir comigo gata?

“Gosto de coisa grande”
-Ah vai te catar cara, não enrola. Vaza, zé ruela!

Sem sucesso! Zé ficou sem saber o que tinha feito de errado
Embarcou, então, em mais um papo...

“Põe até o talo”
-E ae gatão, rola?

“Zé a fim”
-Pode ser querida...quer tomar uma cerveja?

“Põe até o talo”
-Na boa, só estou a fim sexo, cerveja eu tomo com meu marido todo dia

“Zé a fim”
-Pô gata, casada, maior vacilo não é?

“Põe até o talo”
-Vacilo é perder tempo com você...em que mundo você vive? Dá linha...

Não estava fácil para Zé! Até que foi chamado por “De boa”. O nick era até mais suave que os anteriores. Ele se animou...

“De boa”
-Boa noite...tudo bem com você?

“Zé a fim”
-Tudo! Como você esta?

“De boa”
-Tô bem, que gentil da sua parte perguntar! Isso é tão incomum por aqui. O que procura?

“Zé a fim”
-Conhecer alguém legal aqui, ver o que rola, sem estresse...

“De boa”
-Sabe que eu também, Zé! Não agüento mais sexo por sexo. Quem sabe encontro algo mais do que isso?

Nessa altura, Zé se animou, mas tomou todo o cuidado para parecer muito afoito. Evitou também ir a detalhes muito pessoais, para não constranger a garota!

“Zé a fim”
-O que faz da vida? Onde mora?

“De boa”
-Trabalho com fisioterapia e moro no bairro Palmeiras, Zé!

Zé imaginou aquelas mãos suaves subindo por suas pernas, massageando suas coxas, mas tirou rapidinho esse pensamento da cabeça, para não por tudo a perder. Sem contar que a gata morava perto, no mesmo bairro.

“Zé a fim”
-Eu também no Palmeiras, na rua Antártica

“De boa”
-Que coincidência! A gente tá na mesma rua, Zé! Moro no edifício Parque Verde....e você?

Zé mal podia acreditar! Não era possível! Ela mora no mesmo prédio! Vai ser só pegar o elevador, pensou! Sem congestionamento, sem atraso, e o melhor, quem sabe o “esquenta” já não começava agora mesmo....

“Zé a fim”
-Você não vai acreditar, mas a gente mora no mesmo prédio! É muita indiscrição da minha parte perguntar em que andar?

“De boa”
-Você ta brincando, não pode ser! No mesmo prédio? Moro no 24º. E você?

Zé gelou. 24º era justamente o andar em que ele mesmo morava! Dois apartamentos por andar. E do lado moravam Dona Julieta, uma coroa nada enxuta de seus 60 anos (que dificilmente estaria acordada em plena madrugada, teclando em uma sala de bate-papo) e o filho dela, lutador de vale tudo, que trabalhava como massagista em um time de futebol !

Na tela do computador apareceu: “Zé a fim” sai da sala!

E não é que doutor Bairo tinha razão? Internet é mesmo que nem praça de cidade do interior! Todo mundo faz e todo mundo fique sabendo!